‘A aceitação leva a uma vida mais digna’, diz nutricionista

Autora do blog e canal do YouTube Não Sou Exposição, a nutricionista Paola Altheia desmistifica questões sobre a relação entre peso e saúde. Confira.

Muita gente associa gordura a doença. Por que?
Tem uma questão da maneira que se promove saúde – da questão higienista  da coisa  – e também tem uma grande indústria que promete felicidade e que está diretamente conectada com a magreza.

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Tá tendo gorda! Baianas inspiram e combatem preconceitos nas ruas e na web

Participar do primeiro ato do Movimento Vai Ter Gorda em Salvador e ver outras mulheres gordas felizes com seus corpos me fez, pela primeira vez, sentir 100% segura com o meu. Há cerca de dois anos, o contínuo processo de autoaceitação (não confunda com comodismo) tem sido meu maior aliado. Amo meu corpo e o reconheço como um instrumento político que quebra barreiras. Com 15 mil seguidores no Instagram, sou apenas um exemplo de que, em meio à ditadura do corpo magro, ser gorda e se orgulhar disso é combativo e muda vidas.

(Foto: Arquivo pessoal)

Cheias de amor próprio, exalando bem-estar e com histórias inspiradoras, baianas gordas inspiram milhares de pessoas com discursos políticos nas ruas e na web. Mostram que estar fora do padrão considerado ideal pela sociedade não é sinônimo de doença ou feiura: é possível ser gorda, se sentir bem com o corpo e manter hábitos saudáveis.

A chegada do Vai Ter Gorda na Bahia, que comemora dois anos neste mês, pode ser considerada um marco na cena gorda local. Desde então, mais mulheres têm passado pelo processo de autoaceitação, fundamental na construção de uma autoestima saudável e do amor-próprio. “Muitas tinham vergonha e não têm mais. Estamos conseguindo chamar atenção da sociedade e desconstruir preconceitos”, avalia Adriana Santos, coordenadora do Movimento. Empoderar mulheres e questionar padrões, entretanto, é um trabalho de formiga, já que os empecilhos enfrentados por pessoas gordas estão em todos os lugares. “É uma luta difícil”, resume.

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Adriana Santos, 33, faz balanço do Movimento no estado
(Foto: Milena Abreu/Divulgação)

Apesar de afrontoso, esse movimento de afirmação das pessoas gordas é “extremamente necessário”, como destaca a psicóloga Paula Gonzaga. “A expansão dessa luta está ligada às redes sociais e à internet, que são espaços de resistência. Tem ainda contribuições do feminismo,  fundamentais para que as mulheres se organizem e questionem esse padrão de beleza e de saúde absurdo”, explica ela, que é doutora em Psicologia Social e mestre em Estudos sobre Mulheres, Gênero e Feminismo.

Representatividade
Além dessa movimentação, a formação da autoestima das gordas na Bahia tem grande influência da crescente representatividade na TV, nas artes e nas redes sociais. Ver mulheres fortes e bem realizadas – como a dona do hit Que Tiro Foi Esse, Jojo Todynho, que é gorda, negra e está bombando no país – afeta na forma como nós, pessoas gordas, nos vemos.

Figuras locais também se destacam ao mostrar que peso não limita ninguém de ser o que quiser. Pioneira na luta contra a gordofobia (preconceito contra pessoas gordas) na Bahia, a grafiteira vegana Sista Katia, 31, defende que são as pessoas que colocam peso na palavras. “Gorda é só uma característica, sou  mais que isso. Como o corpo é o nosso maior instrumento, penso que temos que cuidar dele fisicamente e mentalmente para não perder essa guerra”, afirma ela, que curte meditar e pratica atividades físicas: “Me ajuda a respirar melhor. Tenho uma alimentação equilibrada, bebo muita água e caminho muito”. No Instagram, posta fotos com looks diferentes, mensagens empoderadas, além de receber relatos sobre o quanto inspira mulheres.

Sista Katia (@sistakatia)
Grafiteira e vegana, Sista Kátia tem 31 anos e é de Cajazeiras. Com mais de 12 mil seguidores no insta, ela posta fotos de looks diversos e mostra sua vida sem filtros e maquiagem no Stories. Antes do movimento ‘Vai ter gorda’ pousar na capital, ela chegou a promover encontros de gordas

(Foto: Reprodução/Instagram)

Assim como Sista, a trancista Erica Almeida, 27, coloca o corpo pra jogo e empodera outras mulheres gordas nas redes sociais.  “Falo bastante sobre aceitação e, nas fotos, transmito que a gordas podem tudo: usar biquíni, decote, roupa colada, etc. A sociedade é tão preconceituosa que gordo vira algo feio. Mas, quem disse isso?”, questiona. Para ela, mais importante do que se aceitar, é não se guiar pelo padrão estético dos outros: “Não faço apologia à obesidade. Digo para se encaixarem no que acham melhor para elas. Se emagrecer é o melhor pra você, não vejo problemas”.

Erica Almeida (@negritaalmeida)
Você quer lacração? A trancista Erica Almeida, de 27 anos, mostra que gordas podem ser e fazer o que quiserem  – incluindo usar biquínis cavados, roupas coladas e decotadas. Também aparece nos Stories dando dicas de aceitação

(Foto: Reprodução/Instagram)

Com 25 mil seguidores nas redes, a modelo Bell Rocha, 27, sempre foi gorda e revela sofrer menos preconceito do que mulheres com cintura maior, como Erica: “Tudo porque sou uma ‘gorda aceitável’ (com peitos e quadris largos e cintura fina) o que também é ridículo. Sempre discuto isso e mostro que gordo também é bonito”.

Bell Rocha (@bell_rocha)
Bell Rocha, 27 anos, trabalha como modelo plus size e mostra em seu perfil do Instagram que gordas também são belas e  que não são doentes. Ela tem mais de  25 mil seguidores
(Foto: Reprodução/Instagram)

Quem também revolucionou a cena foi a produtora cultural Carla Galrão, 25. No perfil @gordaroupa, ela traz garimpos de moda e serve de conselheira para mais de 10 mil pessoas:

“Ajudo mulheres que, como eu, têm dificuldade de achar roupas e converso muito com elas. Uma vez, uma mãe contou que a filha 7 anos queria cortar a própria barriga. Ela mostrou minha foto, a criança me achou bonita e se reconheceu. Isso é representatividade e aconteceu comigo, quando vi gordos invadindo espaços”.

Carla Galrão (@gordaroupa)
Com mais de 10 mil seguidores em seu instagram, a produtora cultural Carla Galrão, 25 anos, dá dicas de onde mulheres gordas podem encontrar roupas e acessórios em conta em salvador. Entre os garimpos, peças de grandes lojas de departamento e de lojas de rua. Por lá, ela sempre conversa com suas seguidoras sobre autoestima e aceitação e problematiza questões atuais

(Foto: Reprodução/Instagram)

Carla chegou a tomar remédios sem receita e fazer dietas abusivas até perceber que ser gorda não é um problema. “Achava que só ia ser feliz se emagrecesse. Me aceitei quando me entendi gorda. Mas nem sempre estou bem. O empoderamento é  diário e que nunca acaba. Por isso, é importante ver que existem pessoas como você. Apesar da aceitação ser um processo interno, a inspiração vem do ambiente externo”, diz.

Aceitação
Processo comum às baianas aqui citadas, a autoaceitação – ao contrário do que muita gente pensa – abre portas para uma vida digna. É o que defende a nutricionista Paola Altheia: “Pessoas que passaram a vida se envergonhando e não se permitindo um monte de experiências estão vivendo com mais felicidade e qualidade. No entanto, já ouvi inúmeros relatos das consequências nefastas da não aceitação do corpo gordo: bullying, isolamento, depressão, sedentarismo, compulsão alimentar, bulimia, síndrome do pânico, ansiedade, negligência médica, automutilação e tentativa de suicídio. Se existe algo na sociedade que deve despertar a nossa preocupação é a intolerância. Gordas não causam a morte de ninguém”.

Paola Altheia defende que pessoas gordas não são necessariamente doentes
(Foto: Reprodução/Instagram)

*Matéria feita por mim e publicada originalmente no jornal CORREIO

Gorda é sinônimo de doença? Padrão de corpos é benéfico para várias indústrias

Apesar de ser verdade no imaginário de muita gente, a correlação entre peso e (não) saúde vem sendo questionada por representantes do Movimento Vai Ter Gorda e especialistas. “Tem muita gente que é gorda e é saudável. Ao mesmo tempo, tenho amigas que são super magras e têm problemas de pressão ou de coração”, conta a produtora Érika Cadôr.

Quando o assunto é saúde, a modelo Adriana Santos, assim como boa parte das participantes do Movimento Vai Ter Gorda, afirmam que não é preciso ser magra para ser saudável. “Nos empoderamos e também praticamos atividades físicas e cuidamos da nossa saúde regularmente”, revela. Ela incentiva as mulheres a amarem seus corpos e a se cuidarem.

Segundo o historiador Renato Souza, essa correlação entre gordo e não saudável faz parte de uma construção histórica e é formada por uma articulação entre saberes médicos e as indústrias farmacêutica e da moda. “O que a medicina faz é se apropriar de um debate social e legitimá-lo socialmente. Nesse caso, identificar esse corpo como doença. Para a medicina, só existem dois caminhos extremos: cirurgia e medicamentos”, explica ele, que também estuda gordofobia. Souza afirma que esse processo, que existe em várias esferas, é chamado de medicalização do corpo. “Existe muito(a) gordo(a) saudável, sim. O corpo gordo como doença é mais um postulado da medicina do que – de fato – uma questão aplicada”, afirma, ressaltando que a existência de um padrão que nega os corpos na sociedade é benéfica para várias indústrias. Ouça trecho da entrevista com o historiador:

Souza defende que as estratégias que muitas pessoas adotam para chegar ao padrão considerado ideal são desumanas. “A bariátrica, por exemplo, tem um alto índice de erros. Muita gente fala que ‘é uma questão de saúde’ e acha que os problemas estarão resolvidos se for mag… quer dizer, saudáveis. Mas querem mesmo é emagrecer para alcançar um padrão de beleza e não saúde”, pontua.

Segundo o historiador, a sociedade não só acredita no discurso do magro e saudável como algo verdadeiro como constrói um imaginário que reflete em outros setores da vida social, como o trabalho. “O corpo gordo é associado a alguém preguiçoso ou menos capaz, o que não é verdade”, afirma. Para Renato, uma resposta a esse estigma social é uma ação política organizada. É o caso dos grupos de discussão sobre gordofobia, corpo, feminismo, etc. Ele cita as redes sociais como um local importante de debate. “É preciso questionar e discutir o que é considerado natural. Só quando são mais velhas é que essas meninas começam a enfrentar os padrões naturalizados pela sociedade”.

A psicóloga Paula Gonzaga, que tem mestrado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo considera ainda que essas discussões devem ser levadas às escolas públicas, à formação dos profissionais de saúde e aos serviços da ponta do sistema. “A maioria das pessoas se informam pela TV ou por revistas sensacionalistas que cumprem uma agenda de patologização do que é diferente. Temos um programa televisivo na emissora de maior audiência do país que vincula diariamente reportagens que associam pessoas gordas à doença. Esse é um exemplo de porque as pessoas ainda acreditam que essa é uma relação indissociável”, explica. Ela ressalta que a insatisfação das mulheres com o próprio corpo compõe um nicho de mercado extremamente lucrativo, no qual reforçam a todo momento que estamos feias e doentes, para que o consumo de produtos e procedimentos continue aumentando.

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Paula Gonzaga defende que peso não é sinônimo de doença

Paula pontua que ser gordo(a) não é determinante para que alguém adoeça. “As pessoas fazem discursos relacionando de forma determinista saúde e magreza. É preciso questionar as informações que são descaradamente e compulsivamente empurradas sobre nós. As pessoas reproduzem isso de forma irresponsável, negligente, gerando uma patrulha dos corpos alheios. A preocupação não é com a saúde, é com o controle”, argumenta.

Apesar de não ser considerado ideal por muitos, o Índice de Massa Corporal (IMC) ainda é utilizado pelos médicos para classificar o peso. A endocrinologista Damaris Lopes explica que é considerado obesidade o resultado acima de 30. “Quando você tem sobrepeso, tem dificuldades em várias funções do organismo. Se isso vai se perpetuando, além das alterações metabólicas, aumentam as questões ortopédicas. Isso tende a piorar com o passar dos anos”, afirma ela, que atende na Clínica de Endocrinologia, Diabetes e Obesidade.

A médica considera que obesidade é doença e precisa ser prevenida e tratada. “Tem pessoas que têm sobrepeso e todos os dados estão normais – isso é fato. Mas quanto tempo isso vai durar? Às vezes estão gastando a saúde antes da hora. Nenhum extremo é
bom – nem ser muito magro nem muito gordo. É interessante que a pessoa tente manter um peso normal. Se ela tem obesidade
nível 3, que tente abaixar um pouco e depois manter o peso”, pontua. Ela ressalta que o acompanhamento médico é essencial para todo mundo, independente do peso. Ouça trecho da entrevista com a médica: