Projeto fotográfico que mostra a beleza de mulheres gordas chega a Salvador

Muito provavelmente você está ou já esteve, alguma vez na vida, insatisfeito com o seu corpo. Não é que, do nada, você simplesmente deixasse de se amar. Mas, quando você é mulher, a pressão estética para alcançar um determinado padrão é grade. Esses efeitos da sociedade patriarcal e machista na qual vivemos são ainda mais cruéis com as pessoas gordas, que enfrentam diariamente o preconceito (gordofobia) e tentam se encaixar em um padrão de beleza inalcançável.

As coisas pioram quando você busca referências na televisão, nas revistas e nas indústrias de moda e cosméticos e encontra pouquíssimas ou nenhuma. E foi justamente essa busca por representatividade que fez a fotógrafa Milena Paulina, 24 anos, criar um projeto fotográfico que colocasse mulheres gordas em evidência. Após fazer cliques de mais de 100 pessoas, o ‘Eu, Gorda’ chega a capital baiana nesta sexta-feira (2).

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Cinco filmes para refletir sobre a ditadura da beleza e amor-próprio

O maior serviço de streaming do mundo, a Netflix, lançou no mês passado o original Sierra Burgess é Uma Loser. O filme tem dividido opiniões porque, apesar de ter uma protagonista gorda – interpretada pela atriz Shannon Purser – muita gente pensa que o enredo possui falhas sérias e não promove o amor próprio e a confiança.

Em tempos de empoderamento feminino, movimento body positive e luta contra os preconceitos, separamos cinco filmes que têm uma mensagem bacana nesse sentido e que questionam a ditadura da beleza e/ou falam sobre amor-próprio. Prepare a pipoca!

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‘Amar seu corpo é ir contra tudo o que te ensinaram’, diz Alexandra Gurgel

Criadora do canal Alexandrismos no YouTube, hoje com 350 mil inscritos e 16 milhões de visualizações, a jornalista Alexandra Gurgel, 29 anos, lança seu primeiro livro, Pare de se Odiar: Porque Amar o Próprio Corpo é um Ato Revolucionário, na próxima segunda-feira (24). Essa é primeira obra brasileira a abordar temas como body positive (movimento que prega o amor ao corpo, independentemente do formato) e gordofobia.

Em 154 páginas e cinco capítulos, a autora alerta sobre questões corporais, como pressão estética e preconceito, e questiona os padrões impostos pela sociedade, levando a reflexões sobre o corpo. Confira entrevista completa com a youtuber, jornalista e militante, que falou com o CORREIO sobre preconceito, bem-estar e sobre o processo de escrita do seu livro. Deu ainda dicas para quem quer trilhar o caminho do amor próprio.

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Mulheres falam da dificuldade de encontrar roupas plus size

Ao entrar numa loja de roupas e pedir uma informação sobre uma peça escutar: “não tem pro seu tamanho” é um constrangimento constante para boa parte das gordas. “E realmente não tem, porque as roupas raramente são disponibilizadas em tamanhos grandes e, quando são, escondem o corpo, como se fosse algo do que se envergonhar”, conta a psicóloga Paula Gonzaga, que foi gorda a maior parte da sua vida.

“A mulher gorda, assim como a mulher negra (o que me contempla duplamente), ocupa um lugar de desvalorização dentro do sistema sexista. É como se ser gorda, ser negra, lhe tornasse menos mulher”, completa. Ela conta que uma vez, na escola, organizaram um passeio para um parque aquático e uma colega a aconselhou a não ir. “Tudo para que eu não me se sentisse exposta, porque usaria biquíni”.

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Paula Gonzaga acredita que a mulher gorda ocupa um lugar de desvalorização na sociedade

A dificuldade para encontrar tamanhos plus size – que, no Brasil, inclui modelos a partir de 44 (pasmem!) – não é só de Paula. É também da estudante Liz Poletto, 17. “Ou você vai em alguma loja específica – que tem seu tamanho – o que muitas vezes é bizarro, porque as roupas não são legais; ou você tem que sair garimpando por aí aquela única peça que vai te caber. Tenho que ficar horas batendo perna”, conta.

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Liz conta que tem que bater muita perna para encontrar roupas estilosas do seu tamanho

Ela critica o fato das lojas, plus size ou não, não possuirem roupas estilosas. “Não sei o que se passa na cabeça das pessoas. Pensam: ‘é gordinha, tem que se cobrir. Ponto, acabou’. Não é bem assim. Eu quero me vestir bem, quero estar bem com meu corpo. É um saco achar calça jeans, vestido e até a farda do colégio – não ligo de pegar o modelo masculino, mas tem muita menina que liga e fica triste”, revela. Confira depoimento de Liz:

Gorda é sinônimo de doença? Padrão de corpos é benéfico para várias indústrias

Apesar de ser verdade no imaginário de muita gente, a correlação entre peso e (não) saúde vem sendo questionada por representantes do Movimento Vai Ter Gorda e especialistas. “Tem muita gente que é gorda e é saudável. Ao mesmo tempo, tenho amigas que são super magras e têm problemas de pressão ou de coração”, conta a produtora Érika Cadôr.

Quando o assunto é saúde, a modelo Adriana Santos, assim como boa parte das participantes do Movimento Vai Ter Gorda, afirmam que não é preciso ser magra para ser saudável. “Nos empoderamos e também praticamos atividades físicas e cuidamos da nossa saúde regularmente”, revela. Ela incentiva as mulheres a amarem seus corpos e a se cuidarem.

Segundo o historiador Renato Souza, essa correlação entre gordo e não saudável faz parte de uma construção histórica e é formada por uma articulação entre saberes médicos e as indústrias farmacêutica e da moda. “O que a medicina faz é se apropriar de um debate social e legitimá-lo socialmente. Nesse caso, identificar esse corpo como doença. Para a medicina, só existem dois caminhos extremos: cirurgia e medicamentos”, explica ele, que também estuda gordofobia. Souza afirma que esse processo, que existe em várias esferas, é chamado de medicalização do corpo. “Existe muito(a) gordo(a) saudável, sim. O corpo gordo como doença é mais um postulado da medicina do que – de fato – uma questão aplicada”, afirma, ressaltando que a existência de um padrão que nega os corpos na sociedade é benéfica para várias indústrias. Ouça trecho da entrevista com o historiador:

Souza defende que as estratégias que muitas pessoas adotam para chegar ao padrão considerado ideal são desumanas. “A bariátrica, por exemplo, tem um alto índice de erros. Muita gente fala que ‘é uma questão de saúde’ e acha que os problemas estarão resolvidos se for mag… quer dizer, saudáveis. Mas querem mesmo é emagrecer para alcançar um padrão de beleza e não saúde”, pontua.

Segundo o historiador, a sociedade não só acredita no discurso do magro e saudável como algo verdadeiro como constrói um imaginário que reflete em outros setores da vida social, como o trabalho. “O corpo gordo é associado a alguém preguiçoso ou menos capaz, o que não é verdade”, afirma. Para Renato, uma resposta a esse estigma social é uma ação política organizada. É o caso dos grupos de discussão sobre gordofobia, corpo, feminismo, etc. Ele cita as redes sociais como um local importante de debate. “É preciso questionar e discutir o que é considerado natural. Só quando são mais velhas é que essas meninas começam a enfrentar os padrões naturalizados pela sociedade”.

A psicóloga Paula Gonzaga, que tem mestrado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo considera ainda que essas discussões devem ser levadas às escolas públicas, à formação dos profissionais de saúde e aos serviços da ponta do sistema. “A maioria das pessoas se informam pela TV ou por revistas sensacionalistas que cumprem uma agenda de patologização do que é diferente. Temos um programa televisivo na emissora de maior audiência do país que vincula diariamente reportagens que associam pessoas gordas à doença. Esse é um exemplo de porque as pessoas ainda acreditam que essa é uma relação indissociável”, explica. Ela ressalta que a insatisfação das mulheres com o próprio corpo compõe um nicho de mercado extremamente lucrativo, no qual reforçam a todo momento que estamos feias e doentes, para que o consumo de produtos e procedimentos continue aumentando.

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Paula Gonzaga defende que peso não é sinônimo de doença

Paula pontua que ser gordo(a) não é determinante para que alguém adoeça. “As pessoas fazem discursos relacionando de forma determinista saúde e magreza. É preciso questionar as informações que são descaradamente e compulsivamente empurradas sobre nós. As pessoas reproduzem isso de forma irresponsável, negligente, gerando uma patrulha dos corpos alheios. A preocupação não é com a saúde, é com o controle”, argumenta.

Apesar de não ser considerado ideal por muitos, o Índice de Massa Corporal (IMC) ainda é utilizado pelos médicos para classificar o peso. A endocrinologista Damaris Lopes explica que é considerado obesidade o resultado acima de 30. “Quando você tem sobrepeso, tem dificuldades em várias funções do organismo. Se isso vai se perpetuando, além das alterações metabólicas, aumentam as questões ortopédicas. Isso tende a piorar com o passar dos anos”, afirma ela, que atende na Clínica de Endocrinologia, Diabetes e Obesidade.

A médica considera que obesidade é doença e precisa ser prevenida e tratada. “Tem pessoas que têm sobrepeso e todos os dados estão normais – isso é fato. Mas quanto tempo isso vai durar? Às vezes estão gastando a saúde antes da hora. Nenhum extremo é
bom – nem ser muito magro nem muito gordo. É interessante que a pessoa tente manter um peso normal. Se ela tem obesidade
nível 3, que tente abaixar um pouco e depois manter o peso”, pontua. Ela ressalta que o acompanhamento médico é essencial para todo mundo, independente do peso. Ouça trecho da entrevista com a médica: