‘A aceitação leva a uma vida mais digna’, diz nutricionista

Autora do blog e canal do YouTube Não Sou Exposição, a nutricionista Paola Altheia desmistifica questões sobre a relação entre peso e saúde. Confira.

Muita gente associa gordura a doença. Por que?
Tem uma questão da maneira que se promove saúde – da questão higienista  da coisa  – e também tem uma grande indústria que promete felicidade e que está diretamente conectada com a magreza.

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Gorda é sinônimo de doença? Padrão de corpos é benéfico para várias indústrias

Apesar de ser verdade no imaginário de muita gente, a correlação entre peso e (não) saúde vem sendo questionada por representantes do Movimento Vai Ter Gorda e especialistas. “Tem muita gente que é gorda e é saudável. Ao mesmo tempo, tenho amigas que são super magras e têm problemas de pressão ou de coração”, conta a produtora Érika Cadôr.

Quando o assunto é saúde, a modelo Adriana Santos, assim como boa parte das participantes do Movimento Vai Ter Gorda, afirmam que não é preciso ser magra para ser saudável. “Nos empoderamos e também praticamos atividades físicas e cuidamos da nossa saúde regularmente”, revela. Ela incentiva as mulheres a amarem seus corpos e a se cuidarem.

Segundo o historiador Renato Souza, essa correlação entre gordo e não saudável faz parte de uma construção histórica e é formada por uma articulação entre saberes médicos e as indústrias farmacêutica e da moda. “O que a medicina faz é se apropriar de um debate social e legitimá-lo socialmente. Nesse caso, identificar esse corpo como doença. Para a medicina, só existem dois caminhos extremos: cirurgia e medicamentos”, explica ele, que também estuda gordofobia. Souza afirma que esse processo, que existe em várias esferas, é chamado de medicalização do corpo. “Existe muito(a) gordo(a) saudável, sim. O corpo gordo como doença é mais um postulado da medicina do que – de fato – uma questão aplicada”, afirma, ressaltando que a existência de um padrão que nega os corpos na sociedade é benéfica para várias indústrias. Ouça trecho da entrevista com o historiador:

Souza defende que as estratégias que muitas pessoas adotam para chegar ao padrão considerado ideal são desumanas. “A bariátrica, por exemplo, tem um alto índice de erros. Muita gente fala que ‘é uma questão de saúde’ e acha que os problemas estarão resolvidos se for mag… quer dizer, saudáveis. Mas querem mesmo é emagrecer para alcançar um padrão de beleza e não saúde”, pontua.

Segundo o historiador, a sociedade não só acredita no discurso do magro e saudável como algo verdadeiro como constrói um imaginário que reflete em outros setores da vida social, como o trabalho. “O corpo gordo é associado a alguém preguiçoso ou menos capaz, o que não é verdade”, afirma. Para Renato, uma resposta a esse estigma social é uma ação política organizada. É o caso dos grupos de discussão sobre gordofobia, corpo, feminismo, etc. Ele cita as redes sociais como um local importante de debate. “É preciso questionar e discutir o que é considerado natural. Só quando são mais velhas é que essas meninas começam a enfrentar os padrões naturalizados pela sociedade”.

A psicóloga Paula Gonzaga, que tem mestrado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo considera ainda que essas discussões devem ser levadas às escolas públicas, à formação dos profissionais de saúde e aos serviços da ponta do sistema. “A maioria das pessoas se informam pela TV ou por revistas sensacionalistas que cumprem uma agenda de patologização do que é diferente. Temos um programa televisivo na emissora de maior audiência do país que vincula diariamente reportagens que associam pessoas gordas à doença. Esse é um exemplo de porque as pessoas ainda acreditam que essa é uma relação indissociável”, explica. Ela ressalta que a insatisfação das mulheres com o próprio corpo compõe um nicho de mercado extremamente lucrativo, no qual reforçam a todo momento que estamos feias e doentes, para que o consumo de produtos e procedimentos continue aumentando.

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Paula Gonzaga defende que peso não é sinônimo de doença

Paula pontua que ser gordo(a) não é determinante para que alguém adoeça. “As pessoas fazem discursos relacionando de forma determinista saúde e magreza. É preciso questionar as informações que são descaradamente e compulsivamente empurradas sobre nós. As pessoas reproduzem isso de forma irresponsável, negligente, gerando uma patrulha dos corpos alheios. A preocupação não é com a saúde, é com o controle”, argumenta.

Apesar de não ser considerado ideal por muitos, o Índice de Massa Corporal (IMC) ainda é utilizado pelos médicos para classificar o peso. A endocrinologista Damaris Lopes explica que é considerado obesidade o resultado acima de 30. “Quando você tem sobrepeso, tem dificuldades em várias funções do organismo. Se isso vai se perpetuando, além das alterações metabólicas, aumentam as questões ortopédicas. Isso tende a piorar com o passar dos anos”, afirma ela, que atende na Clínica de Endocrinologia, Diabetes e Obesidade.

A médica considera que obesidade é doença e precisa ser prevenida e tratada. “Tem pessoas que têm sobrepeso e todos os dados estão normais – isso é fato. Mas quanto tempo isso vai durar? Às vezes estão gastando a saúde antes da hora. Nenhum extremo é
bom – nem ser muito magro nem muito gordo. É interessante que a pessoa tente manter um peso normal. Se ela tem obesidade
nível 3, que tente abaixar um pouco e depois manter o peso”, pontua. Ela ressalta que o acompanhamento médico é essencial para todo mundo, independente do peso. Ouça trecho da entrevista com a médica: