Qual a importância de 13 Reasons Why?

O texto contém spoilers do último episódio da segunda temporada de 13 Reasons Why. Não leia se não quiser saber o que acontece.

Mesmo que você não seja fã de 13 Reasons Why, da Netflix, deve reconhecer a importância da série não só para a prevenção ao suicídio, mas também para a discussão de temas como abuso sexual e bullying. Apesar de trazer questões delicadas e dividir opiniões sobre a sua abordagem, a trama sobre o suicídio da adolescente Hannah Baker influencia diretamente no aumento da quantidade de pessoas que procura informações sobre o tema e até ajuda psicológica.

Um exemplo disso é que, após a estreia de primeira temporada da série, o Centro de Valorização da Vida (CVV) registrou um aumento de 445% nos pedidos de ajuda recebidos. O site da entidade — que se dedica à prevenção do suicídio por meio do apoio emocional — teve uma alta de 170% na média de visitantes por dia. As buscas pela palavra “suicídio” no Google também aumentaram 100% no Brasil na terceira semana de abril de 2017 – cerca de um mês após a estreia da série – na comparação com o mesmo período de 2015.

A primeira parte da trama também chamou atenção para o silêncio da sociedade em relação ao tema. Considerado um problema gravíssimo de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio deve ser considerado uma prioridade global. A OMS considera que ações estratégicas de prevenção são necessárias, assim como a quebra de estigmas e tabus que rodeiam o assunto.

Segunda temporada de 13 Reasons: mãe de Hannah, Olivia processa escola da filha por bullying
(Foto: Beth Dubber/Netflix/Divulgação)

“Cerca de 90% dos suicídios são evitáveis. Temos um problema de saúde pública e podemos nos prevenir quanto a ele”, afirmou Robert Paris, presidente do CVV à revista Galileu. “Quanto mais falarmos sobre o assunto, mais pessoas conseguiremos ajudar”, completou Karen Scavacini, psicóloga do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção ao Suicídio, em entrevista ao mesmo veículo.

Segunda temporada e cenas de estupro
Com a chegada da segunda temporada de 13 Reasons na última sexta-feira (18), as discussões sobre suicídio, estupro e bullying voltam à tona e reacende-se a polêmica sobre como tratar esses temas sem incentivar imitações no mundo real. Fato é que, quanto maior o silêncio e segredo em torno de um assunto tabu, pior para quem lida com ele. Pelo menos é o que acredita o criador da série, Brian Yorkey. “Falar sobre isso é muito melhor que o silêncio”, defendeu, em entrevista à Vulture.

Yorkey se posicionou após críticos e fãs da série expressaram sua indignação com uma cena violenta de estupro no final da segunda temporada. Nessa temporada, a trama acontece no colégio Liberty High alguns meses após a morte de Hannah (Katherine Langford). O público acompanha o julgamento no tribunal, movido por Olivia (Kate Walsh) e Andy (Brian d’Arcy James) contra o colégio. As consequências da morte de Hannah são mostradas, assim como as versões de cada um dos personagens que apareceram nas 13 fitas da primeira temporada. No último episódio, o solitário Tyler (Devin Druid) é sodomizado com um esfregão. O ataque, que deixa Down sangrando e machucado, o leva a aparecer em sua escola com um rifle de assalto carregado. O criador defendeu a cena e garante que foi incluída para iniciar uma conversa sobre a violência sexual contra homens no ensino médio e não para valor de choque.

“Estamos empenhados neste programa em contar histórias verdadeiras sobre as coisas pelas quais os jovens passam de uma forma tão inflexível quanto possível. Entendemos perfeitamente que isso significa que algumas das cenas do programa serão difíceis de assistir ”, disse ele em um comunicado: “Acredito que o Netflix ajudou a fornecer aos espectadores muitos recursos para entender que esse pode não ser o programa para todos, e também recursos para as pessoas que assistem e estão com problemas e precisam de ajuda”. Assim como à Yorkey disse que a cena deve iluminar um tópico que as pessoas costumam ignorar.

Clay (Dylan Minnette) conversa com o fantasma de Hannah (Katherine Langford)
(Foto: Divulgação)

Assim como as cenas de estupro e suicídio da primeira temporada, ele acredita que a cena de Tyler deve iluminar um tópico que as pessoas costumam ignorar. “Mas o fato é que, por mais intensa que seja essa cena, e tão forte quanto nossas reações a ela podem ser, ela nem chega perto da dor experimentada pelas pessoas que realmente passam por essas coisas”, disse ele.

Ele continuou: “Quando falamos sobre algo ser ‘nojento’ ou difícil de assistir, muitas vezes isso significa que estamos atribuindo vergonha à experiência. Nós preferimos não ser confrontados com isso. Preferimos que fique fora de nossa consciência. É por isso que esses tipos de ataques são subnotificados. É por isso que as vítimas têm dificuldade em procurar ajuda. Acreditamos que falar sobre isso é muito melhor que o silêncio ”.

O estudante Tyler é atacado por Montgmomery e mais dois jogadores de futebol no banheiro da escola. Os garotos o seguram com a cabeça em um vaso sanitário enquanto o estupram com o cabo de um esfregão, que surge ensanguentado. Tyler é deixado ferido no chão, e mais tarde aparece armado no baile da escola, com a intenção de atirar contra seus algozes
(Foto: Divulgação)

Em sua primeira temporada, o seriado foi duramente criticado por mostrar cenas de suicídio e estupro de forma explícita. No caso, porém, as vítimas eram mulheres. “A cena muito, muito intensa do suicídio de Hannah parece ter ofuscado o fato de que Hannah e outra garota foram violentamente estupradas na primeira temporada. Se há uma reação mais forte a essa cena [de Tyler], sendo difícil de assistir, nojenta ou inapropriada, então chega-se ao ponto em que temos de falar que coisas assim acontecem. O fato de que isso seja de certa [considerado] mais nojento do que o que aconteceu com Hannah e Jessica… estou chocado, mas não surpreso”.

Apesar do posicionamento do criador da série, especialistas defendem que essas cenas não deveriam ser mostradas de forma tão explícita, já que podem gerar impactos negativos em quem lê, ouve ou assiste a reproduções de violência, sexo ou morte, desencadeando fortes processos emocionais complexos. “Uma cena de suicídio pode causar muitos impactos na vida de um jovem por meio do gatilho, especialmente quando esses jovens estão fragilizados, angustiados e perdidos nas questões cotidianas, sem apoio e orientação, desconectados com a vida”, afirmou a psicoterapeuta Alessandra Ramasine à Galileu. Ela acredita que a série é útil ao lançar um alerta sobre o problema a pais, professores e amigos, mas prejudicial ao retratar o ato de forma extremamente realista.

Mensagem na nova temporada
Levando em consideração algumas das críticas, a Netflix passou a exibir no começo de cada episódio desta temporada um vídeo de alerta com alguns membros do elenco, como Dylan Minnette, Katherine Langford, Alisha Boe e Justin Prentice. Veja o que eles dizem:

“13 Reasons Why é uma série de ficção que lida com dificuldades, questões do mundo real, tratando de violência sexual, abuso de substâncias, entre outros. Ao acender uma luz sob esses tópicos difíceis, nós esperamos que nosso show possa ajudar espectadores a começar uma conversa. Mas se você está lutando contra essas questões, essa série pode não ser boa para você, ou você pode querer vê-la com um adulto de confiança. Se você já sentiu a necessidade de ter alguém para conversar, aproxime-se de seus pais, amigos, um conselheiro escolar ou um adulto em que confie. Ligue para uma linha de assistência local ou vá em 13reasonswhy.info, pois no minuto em que você começa a falar sobre, fica mais fácil”.

Jessica Davis vive traumatizada após ser violentada por Bryce
(Foto: Beth Dubber/Netflix/Divulgação)

De passagem pelo Brasil, os atores Christian Navarro, Alisha Boe e Brandon Flynn conversaram com o portal AdoroCinema e falaram que o abuso sexual e como sobreviver com esta marca é dos temas mais relevantes neste ano. “Você percebe o quanto isso te afeta por tanto tempo e o quão difícil realmente é se recuperar […] e a audiência vai poder passar por isso com ela. Porque muitas vezes quando vemos mulheres sendo abusadas na televisão, nós só vemos aquilo e não o que vem depois. E o depois é parte mais importante. Foi muito empoderador poder fazer esse personagem num momento tão relevante para a nossa sociedade atual”, contou Alisha, que vive a jovem Jessica Davis. Na etapa da trama, sua personagem vive muito traumatizada com o estupro que sofreu de Bryce Walker. Confira vídeo da entrevista.

*Reportagem minha publicada no jornal CORREIO

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