Alexandra Gurgel questiona padrões e defende a aceitação em seu primeiro livro

Muito provavelmente você está ou já esteve, alguma vez na vida, insatisfeito com o seu corpo. Se você é mulher, a pressão estética para alcançar um determinado padrão é maior: segundo pesquisa do Royal Society for Public Health, do Reino Unido, 90% das meninas de 14 a 24 anos se sentem infelizes com seus corpos e pensam em mudar a própria aparência, cogitando, inclusive, procedimentos cirúrgicos. Os efeitos da sociedade patriarcal e machista na qual vivemos são ainda mais cruéis com as pessoas gordas, que enfrentam diariamente o preconceito (gordofobia) e tentam se encaixar em um padrão de beleza inalcançável.

Até a atriz Bruna Marquezine – que serve de inspiração para muita gente como modelo de beleza – revelou na última semana que passou a vida sendo vítima de humilhação corporal (body shaming) e já sofreu com distúrbio de imagem e depressão. Essas são apenas algumas das consequências perigosas da não aceitação, que incluem também bullying, isolamento, insegurança, sedentarismo, compulsão alimentar, bulimia, baixa autoestima, síndrome do pânico, ansiedade generalizada, negligência médica, automutilação, tentativa de suicídio, entre outras.

“A aceitação é uma prerrogativa para viver. Tem a ver com o bem-estar físico, mas também com saúde mental. Diferente de se conformar, se aceitar tem a ver com autoconhecimento, questionamento e entendimento. Que preço você paga para chegar nesse ‘corpo perfeito’? Se aceitar é primordial para ter uma vida digna”, afirma a jornalista e militante Alexandra Gurgel, 29 anos.

(Foto: Caio Cal/Divulgação)

Criadora do canal Alexandrismos no YouTube, hoje com 350 mil inscritos e 16 milhões de visualizações, ela lança seu primeiro livro, Pare de se Odiar: Porque Amar o Próprio Corpo é um Ato Revolucionário, na próxima segunda-feira (24).

Essa é primeira obra brasileira a abordar temas como body positive (movimento que prega o amor ao corpo, independentemente do formato) e gordofobia.

Sobre a obra: custa R$ 29,90 e tem como editora a BestSeller | Grupo Editorial Record. O lançamento oficial acontece segunda-feira (24), nas livrarias. Pré-venda nas lojas online da Amazon, Cultura e Saraiva
(Foto: Reprodução)

Em 154 páginas e cinco capítulos, a autora alerta sobre questões corporais, como pressão estética e preconceito, e nos faz questionar os padrões impostos pela sociedade, nos levando a reflexões sobre o nosso corpo.

“Você prefere passar a vida toda tentando se encaixar em algo inalcançável ou lutar para se amar todos os dias?”, questiona Alexandra, que desde pequena é alvo de preconceito por conta de seu peso.

Essa mesma pergunta a jornalista se fez, em 2012, aos 23 anos, após realizar uma lipoaspiração para retirar nove litros de gordura – que recuperou na sequência – o que a levou à depressão e a uma tentativa de suicídio. Nessa época, Xanda, como é conhecida na internet, começou a levantar questões sobre corpo, autoimagem, feminismo, etc, e passou a olhar para si pelo viés positivo, sem procurar motivos para se envergonhar ou esconder. Hoje, é uma das grandes vozes do movimento body positive no país e defende que aceitar o próprio corpo é não tentar se encaixar em padrões de beleza.

“O livro inteiro é para você se questionar sobre você. É para todo mundo que está querendo dar um grito de liberdade em direção ao caminho do amor-próprio. Amar o seu próprio corpo é um ato revolucionário porque é ir contra tudo o que te ensinaram e foi construído em você. É você começar um movimento de fazer as pazes consigo mesma, de parar esse relacionamento abusivo consigo mesma, e começar a se amar. É muito difícil quebrar e desconstruir padrões e nadar contra a maré. Por isso, a gente precisa se juntar cada vez mais e dar a cara a tapa”, explica. Além do canal no YouTube, ela é sócia-fundadora da Volume, um coletivo body positive que promove festas, tem uma marca de roupa, entre outros projetos.

A RAIZ DO PROBLEMA
Na obra, Xanda perpassa por suas vivências para que o leitor entenda a quão maléfica é a indústria da beleza, que impõe a magreza a qualquer custo. “Quero que as pessoas se libertem. Ninguém é obrigado a seguir o que falam. A pessoa pode se questionar, abrir os olhos e andar com os próprios pés sem esperar validação alheia. Ninguém precisa de um ‘corpo perfeito’ para começar a viver. Pode começar agora. Afinal, o corpo perfeito é o seu”, acrescenta.

(Foto: Caio Cal/Divulgação)

O problema é que, em uma sociedade capitalista e machista, as pressões começam desde a infância, quando são ensinados e construídos papéis de gênero, moldando como a mulher e o homem “devem” agir na sociedade: “É do capitalismo que nascem todas as opressões. O machismo também é a raiz de muitos problemas. A pressão estética e a gordofobia vêm do machismo. Em uma sociedade capitalista – que visa o lucro e em que tudo é comerciável e pode ser vendido – o corpo se torna um produto. Tudo pode ser comprado, adquirido e moldado. A nossa sociedade está sempre seguindo padrões porque ensinam isso para a gente e vamos achando normal. É uma sociedade que está doente, em busca de ‘chegar lá’, mas você nunca chega. E as pessoas continuam se odiando e se matando, fazendo de tudo para alcançar uma coisa que nem sabem mais se querem e nem o que é”.

(Foto: Reprodução)

Dentro dessa construção social do indivíduo estão os padrões impostos para que a mulher seja perfeita, culminando em transtornos alimentares, problemas mentais e, claro, ódio ao próprio corpo. “Enquanto mulheres são elogiadas pela sua beleza, homens são vistos por suas capacidades. Temos que seguir ainda um padrão de feminilidade e vamos aprendendo que é preciso ser ‘perfeita’ para conquistar alguém. Daí nasce a rivalidade entre as mulheres, em que fica todo mundo disputando para ser ‘a mais perfeita’ e qual será escolhida pelo ‘príncipe’”, fala Xanda.

Assim, as mulheres vão tendo suas vidas cerceadas por todos os lugares e precisam se encaixar num padrão. Fruto da pressão estética, o preconceito com pessoas gordas é ainda mais cruel, ressalta a ativista. “A gordofobia vai muito além da pressão estética. Se dou autoestima para a mulher que sofre pressão estética, ela vai se sentir melhor e a vida dela vai continuar, porque ela tem onde comprar, ela cabe nos lugares. Mas, quando a gente fala de pessoas gordas, falamos de falta de acesso e da patologização desse corpo, considerado doente”, pontua.

Gorda desde pequena, a produtora cultural e influencer Carla Galrão, 26, revela que achava que só ia ser feliz se emagrecesse. “Me aceitei quando me entendi gorda. Mas nem sempre estou bem. O empoderamento é  diário e que nunca acaba”, afirma. Por isso, a baiana acredita que é importante ver que existem pessoas como ela: “Apesar da aceitação ser um processo interno, a inspiração vem do ambiente externo”.

Carla Galrão (@gordaroupa)
Com mais de 14 mil seguidores em seu instagram, a produtora cultural Carla Galrão, 26 anos, dá dicas de onde mulheres gordas podem encontrar roupas e acessórios em conta em Salvador. Entre os garimpos, peças de grandes lojas de departamento e de lojas de rua. Por lá, ela sempre conversa com suas seguidoras sobre autoestima e aceitação e problematiza questões atuais

(Foto: Reprodução/Instagram)

Diferente de alguém magro, quem é gordo, como Carla e Alexandra, pode até ter autoestima e se empoderar, mas vai continuar sofrendo preconceito no dia a dia. Ou seja, continuará sendo julgado, vai receber olhares, não caberá nas cadeiras e, em muitos casos, deixará de ir para certos lugares porque não se encaixa. “A gorda é vista como uma aberração. Existe ainda uma cobrança para que sigamos pelo menos um estereótipo de engraçada, inteligente, simpática, ou da gorda que se ridiculariza e se autodeprecia. É uma vida muito difícil. Quem sofre de gordofobia sobrevive. Por isso que tem que saber se proteger, tem que saber os lugares que frequenta e as pessoas que estão com você”, sinaliza Xanda.

SAÚDE
Apesar de ter argumentos que vão de encontro com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ativista defende que seu livro não faz apologia à obesidade, mas é um incentivo para manter uma vida saudável sem sofrimento. “Não é porque sou gorda que sou doente. A nossa principal luta é para que os corpos sejam tratados da mesma forma. Isso é polêmico porque vai contra a OMS, que fala que obesidade é doença. Não estou falando que a obesidade não é doença, mas não me identifico enquanto obesa porque não sou doente. Levo uma vida com hábitos saudáveis e não sou doente só pelo meu IMC (índice de massa corporal). Estou fazendo apologia à saúde mental”, defende.

Assim como a escritora, a grafiteira, vegana e gorda Sista Kátia, 31, se preocupa bastante com sua saúde. “Adoro meditar e praticar atividades físicas. Temos que cuidar do corpo fisicamente e mentalmente para não perder essa guerra”, afirma a baiana.

Sista Katia (@sistakatia)
Grafiteira e vegana, Sista Kátia tem 31 anos e é de Cajazeiras. Com mais de 14 mil seguidores no insta, ela posta fotos de looks diversos e mostra sua vida sem filtros e maquiagem no Stories

(Foto: Reprodução/Instagram)

Segundo a jornalista, as pessoas têm mais facilidade de aceitar que são doentes do que são apenas gordas. Isso porque ser gordo é sinônimo de fracasso. Nas palavras de Alexandra, está mais do que comprovado que hábitos saudáveis são fatores decisivos para uma vida saudável. “Se você pensa em uma pessoa magra, que fuma, bebe, usa drogas, e em uma pessoa gorda, que tem uma vida com hábitos saudáveis, quem é a saudável? Para a sociedade, a magra. Somos todos hipócritas. A preocupação não é com a saúde, mas com a aparência. Vivemos em uma sociedade em que alguém pega uma gastroenterite, emagrece nove quilos em uma semana, e as pessoas querem pegar essa mesma doença”, exemplifica.

Diante disso, é uma revolução libertadora desenvolver livremente seu verdadeiro ser e encontrar beleza em si mesma. “Não falo ‘você é linda, maravilhosa’ o tempo todo. Alerto a pessoa, para ela ver que é privilegiada por ter acesso a esse conteúdo e perceber outros recortes – negros, LGBTs, etc, sofrem ainda mais opressão – e se questionar. Tem muita gente que nem sabe o que é aceitação, porque precisa, literalmente, sobreviver. Dou um tapa na cara, mas também faço carinho”, resume.

(Foto: Caio Cal/Divulgação)

Para encerrar seu percurso, Alexandra dá dicas para quem quer tirar o projeto de aceitação do papel. “Essa é a forma que trilhei meu caminho, mas você pode seguir outro e está tudo bem. É algo individual e muito íntimo, não tem um passo a passo. Mas, antes de tudo, entenda que você não tem culpa das coisas que passa. Ninguém tem culpa de sofrer com o machismo e gordofobia”, diz.

Depois de estudar o meio em que se vive, se questione. Busque entender o que você realmente gosta e por que quer mudar algo:

“Você quer mesmo emagrecer? Tudo vai mudar depois que você ficar sarada? Ou o cabelo mais comprido? Isso vai te deixar mais feliz? Não tem mudança e revolução sem questionamento”.

Sobre o livro…

  • “Muito importante ver a discussão da gordofobia, pressão estética e saúde mental se espalhando!”, diz Flavia Durante, comunicadora e criadora da maior feira plus size do Brasil, a Pop Plus.
  • “O livro é para todas mulheres que sofrem com pressão estética a vida toda. Amar o corpo e fazer dele o que quiser é libertador”, afirma Poliana Assunção, que é especialista em marketing.
  • “Depois de uma vida de luta, finalmente estou começando a me amar”, revela a estudante Rafaella Domingues sobre o livro de Alexandra.

Perfis para seguir

Thais Carla (@thaiiscarlaoficial) é dançarina de Anitta

Mel Soares (@relaxaaifofa) é blogueira e empresária

Isabella Trad (@todebells) é modelo plus size arrasa nos cliques

Dicas da autora: coloque em prática o amor-próprio 

  • Não dê o que não tem: Lembre que amor, primeiro, é o próprio; depois, o recíproco. Se você não se ama, como vai amar outro alguém?
  • Não se compare com outras mulheres: A comparação é a raiz da insatisfação. Mirando no outro, você não chega a lugar algum. Ninguém é perfeito.
  • Afaste-se de pessoas tóxicas: Pense nas pessoas que te fazem mal porque te deixam para baixo. Algumas delas machucam mesmo.
  • Busque representatividade: Vá atrás de pessoas que te acrescentem, que gerem identificação e te façam sentir normal.
  • Veja beleza em você: Comece a focar no lado positivo das coisas. Perceba o seu corpo e entenda que ele é o seu lar.
  • Crie uma rede de apoio: Quem é do seu bonde? Procure amigas que te representam, te acolham e deixam você ser quem é, sem julgamentos e com empatia.

*Texto meu, originalmente publicado nas edições online e impressa do jornal CORREIO

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