‘Ninguém paga minhas contas’, diz Thaís Carla sobre comentários de ódio na web

Ela foi a primeira gorda a ganhar o Se Vira nos 30, do Domingão do Faustão, em 2009 – quando o movimento body positive (que prega o amor ao corpo, independente do formato), ainda nem pensava em chegar ao Brasil.

De férias na Bahia (terra de seu marido),  a dançarina, coreógrafa e professora de dança carioca Thaís Carla, 27 anos, não esconde a felicidade por estar em um dos melhores momentos da sua carreira. Além de fazer parte do balé da cantora Anitta há dois anos e dar aulas em seu estúdio de dança, ela é influenciadora digital e tem contratos com grandes marcas.

“Cheia de amor próprio e exalando bem-estar”, Thaís quebra padrões e inspira milhares de pessoas com discursos políticos no seu dia a dia e na web. Mostra ainda que o seu corpo “nunca a impediu de realizar sonhos”.

(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Em entrevista ao CORREIO, ela fala sobre a paixão pela Bahia, o amor pela dança e sobre a relação com a chefe Anitta. Também garante que não liga para os rotineiros comentários de ódio que recebe por conta do peso. “Ignoro totalmente. Ninguém paga minhas contas”, afirma.

Quando você começou a se interessar pela dança?
Sempre via minha irmã e gostava de dançar. Quando tinha 4 anos, minha mãe me colocou em uma aula para emagrecer e me apaixonei. Aos 14, comecei a dar aulas e fiquei mais empolgada.

(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Sou formada pela vida. Tentei tirar a carteira no Sindicato dos Profissionais da Dança do Rio e falaram que eu não podia fazer porque  era muito gorda. Depois que apareci na TV, me procuraram, mas não fiz.  Comecei em uma academia do meu bairro. Depois consegui uma bolsa em Linópolis (MG) e fiz minha formação lá. Dançava de tudo, mas minha especialidade é jazz.

E você continua dando aula? 
Tenho uma academia de dança com minha irmã há 15 anos. Dou aulas de street dance e jazz.

Dançarina, coreógrafa e professora de dança, a carioca Thaís Carla, 27 anos, começou a dançar aos quatro anos. Com 14, já dava aulas de dança, mas o preconceito das outras pessoas quase a impediu de seguir a carreira. Tudo mudou quando venceu o quadro Se Vira nos 30, do Domingão do Faustão, em 2009.  Ela tinha apenas 17 anos e chamou atenção de muita gente por quebrar padrões já naquela época. Em 2012, entrou para o balé do programa Legendários, da Record. Foram quase quatro anos ao lado de Marcos Mion. Em 2016, Thaís foi convidada para dançar ao lado de Anitta no Criança Esperança e, desde 2017, integra o balé fixo da cantora
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Como é sua rotina?
Acordo, danço, pesquiso e dois dias dou aulas. Todo dia faço algo: caminho, nado… Atividade física me faz bem. Libera hormônios da felicidade e me dá vontade de fazer mais coisas.

O que você sente quando está dançando?
Me sinto feliz e realizada. É uma mágica que me eleva pra outro lugar.

Como foi participar do Domingão do Faustão?
Minha irmã me filmou escondido e enviou uma fita para o Se Vira nos 30. Recebi a ligação e não acreditei. Pisquei e estava com o cheque de R$ 15 mil.

Aparecer na TV foi um divisor na sua carreira?
Com certeza. Depois do Faustão, participei de programas em várias emissoras. Em 2012, passei a ter um quadro no Legendários.

Quando surgiu a oportunidade de ser dançarina da Anitta?
Participei da apresentação dela no Criança Esperança, em 2016.

Tive a Maria e estava crente que só iria ser mãe e dar aulas. Em 2017, a Arielle (Macedo, coreógrafa da Anitta) disse que ela me queria no balé. Fiz o teste e ensaiei achando que ia fazer um show, mas já estou há  dois anos. Ano passado me apresentei em Portugal, no México…  Sempre participo do Show das Poderosinhas, do Prêmio Multishow… Faço só coisa boa! (risos)

Internacional: Há dois anos com Anitta, Thaís dançou no Rock In Rio Lisboa em 2018
(Foto: Eduardo Alberto/Divulgação)

Muita gente diz que a inclusão de gordas na equipe da Anitta é marketing. Você concorda?
Não. Ela quis fazer a diferença e é uma grande empresária, então sabe o que está fazendo.

Como é sua relação com ela?
Totalmente profissional. Ela é minha patroa e ponto. Encontro com ela nos shows e nos ensaios gerais. Ela é uma mulher de exemplo: tudo se move quando ela fala sim.

Você também é influenciadora. Quando o Instagram passou a te dar renda?
Em 2017. Eu nem sabia que existia isso. Eu só estava sendo eu. Não estava querendo explicar alguma coisa ou provar algo. Eu sou muito eu mesma. Tudo o que eu falo lá é porque eu realmente faço. Eu acordo dançando, dou ‘bom dia, meu povo’, falo uma palavra de incentivo – nem que seja ‘acorda, maravilhosa’. Falo um pouco da minha vida e é como se fosse um diário. Tudo é exatamente do jeito que eu sou. Quando vi estava vivendo disso.

O que você acha que as pessoas mais gostam em você?
Eu creio que a maioria das pessoas que se identificam comigo não é pelo fato de eu ser gorda – tanto que a maioria dos meus seguidores é magro. Acho que é pela minha espontaneidade de ser. Sou pobre mesmo; se não gosto, não gosto mesmo; não vou sorrir pra quem não gosta de mim. Não é só pelo meu corpo, nem pelas minhas conquistas. Eu sou muito verdadeira e acho que é isso que faz com que as pessoas gostem de mim.

O que me move é encontrar uma pessoa e ela falar que mudei o dia dela. Só isso já vale. Amo ajudar pessoas. Mas não quero só pra mim: quero ver muitas gordas no poder.

Além das mensagens emocionantes, você recebe várias mensagens de ódio. Como lida com elas?
Sempre me castigam falando que vou morrer. Sempre fui gorda,  fiz atividades físicas e estou vivíssima. Faço de tudo. Quem é gorda maior (e veste mais que 56) sofre muito. As pessoas ridicularizam demais.

O ‘gorda’ ainda é dito de forma muito rude, escrota. Ainda é visto como sinônimo de desleixo

Você responde esses comentários?
Se eu responder, estarei impulsionando aquele comentário. Fico rindo, mas ignoro totalmente. Ninguém paga minhas contas. Podem falar o que quiser, mas não estou nem aí. Não quero provar nada pra ninguém. Só quero ser feliz.

Eu não tenho que ser a Barbie. Por isso, vivo minha vida feliz sendo gorda e acabou.

(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Você já era militante muito antes de se falar em empoderamento. Quando se deu conta disso? 
Comecei a perceber isso em 2017. Foi quando eu comecei a descobrir as coisas. Li sobre a Frida Kahlo, vi filmes, documentários. Não sou a maior especialista, mas sei do que vivo e do que as pessoas passam. Sempre fui contra o machismo e o preconceito e lutei contra esses padrões. Era ativista sem saber.

Nem sabia o que era empoderamento – não tenho vergonha disso – mas já estava inspirando outras mulheres.

Você é gorda desde pequena, sempre se sentiu bem?
Acho que todo mundo já teve seu momento de não se aceitar.  Já tomei Sibutramina para emagrecer. Minha mãe me oprimia  reproduzindo preconceitos da sociedade. A pior coisa que fiz na vida foi participar do programa Além do Peso, da Record, em 2016, por grana. Emagreci 40 quilos, mas me sentia feia. Não me encontrei. Que realização é essa que você não pode viver? Eu passava fome, meu cabelo caiu, minha unha caiu. Foi uma destruição da minha vida.

(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

Quando emagrecer deixou de ser uma questão?
Nunca tive problemas com  namoro. Já na questão profissional, me sentia muito oprimida, mas nunca desisti. Todo dia me olhava no espelho e me questionava do porquê ser gorda era sinônimo de feiura sendo que eu não achava isso. Sempre me senti bem e me achei bonita do jeito que sou. A sociedade me oprimia. Os professores falavam que eu nunca ia dançar muito menos ganhar dinheiro com dança. Diziam que não ia ser ninguém se não emagrecesse. Com o tempo, fui questionando coisas e me desconectei dessas pressões.

Qual sua dica pra quem deseja passar pelo processo de autoaceitação?
É um trabalho diário. De você se olhar e cuidar. Muita gente não se olha nem no espelho. Converse consigo mesmo. Vai ter dias que vai se sentir uma merda, mas verá que não vale a pena passar por isso. A busca  não tem fim se você não entende o que tem. Muita gente não aproveita nada pensando em um futuro, sem pensar no agora.

Os corpos estão em evidência no Verão. Você se incomoda com os olhares na praia?
Não. Quando coloco  fio dental, tem gente que acha um absurdo e me questiono o porquê. Se estou bem, afronto e não me importo. As pessoas julgam porque reproduzem padrões e existe muito machismo.

Thaís curtiu vários dias de praia em Madre de Deus
(Foto: Reprodução/Instagram)

Qual sua relação com a Bahia?
Sempre amei. Vim algumas vezes por conta do Israel, meu marido, que é baiano. Quando estou aqui é mágico. As pessoas são  receptivas, alegres e nos fazem sentir bem. Eu amo Madre de Deus, que é onde a gente fica. Espero voltar para mais projetos.

Dendê: O marido dela, o fotógrafo Israel Reis, 24, é baiano de Madre de Deus
(Foto: Reprodução/Instagram)

Você me disse que tem um pouco de dendê no sangue. Por que?
Por conta da alegria. No Rio e em São Paulo, sempre está todo mundo estressado. Aqui, o pouco que as pessoas têm pra elas é muito. E estão sempre rindo. Também tem a questão da musicalidade e da dança. O pessoal mete dança. Eu amo o jeito que vocês dançam aqui. O povo tem uma alegria e uma coisa especial. E deixam nítido que gostam disso.

Thaís Carla em passeio pelo Pelourinho
(Foto: Reprodução/Instagram)

Você tem alguma relação com os artistas locais?
Já dancei com Léo Santana, Márcio Victor e com o É o Tchan. Eu sempre estive próxima a Bahia sem estar na Bahia. Dancei muito É o Tchan – só dava isso. Gosto e converso sempre com o Bruno Magnata, da La Fúria (veja abaixo vídeo dela dançando a música Manuel, da banda, com o marido). Amo o Caetano – já encontrei com ele e é um amor de pessoa. A Ivete é incrível – não lembro se já a conheci, mas tenho vontade de conhecer melhor.

Coreografia de Thaís com a FitDance está no YouTube

Quais seus próximos projetos para esse ano?
Quero me afirmar mais na internet, fazer mais vídeos, conseguir projetos e ver muitas gordas no poder.

FitDance: Na Bahia, Thaís Carla gravou coreografia com Isis Oliveira e Juliana Paiva
(Foto: Israel Reis/Divulgação)

O que te move a continuar fazendo isso tudo?
Encontrar uma pessoa e ela falar que mudei o dia dela. Só de saber que fui responsável por um sorriso, já valeu. Amo ajudar pessoas.

*A entrevista foi feita pela jornalista Naiana Ribeiro, editora da PLUS, e publicada no Jornal CORREIO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *