Projeto fotográfico que mostra a beleza de mulheres gordas chega a Salvador

Muito provavelmente você está ou já esteve, alguma vez na vida, insatisfeito com o seu corpo. Não é que, do nada, você simplesmente deixasse de se amar. Mas, quando você é mulher, a pressão estética para alcançar um determinado padrão é grade. Esses efeitos da sociedade patriarcal e machista na qual vivemos são ainda mais cruéis com as pessoas gordas, que enfrentam diariamente o preconceito (gordofobia) e tentam se encaixar em um padrão de beleza inalcançável.

As coisas pioram quando você busca referências na televisão, nas revistas e nas indústrias de moda e cosméticos e encontra pouquíssimas ou nenhuma. E foi justamente essa busca por representatividade que fez a fotógrafa Milena Paulina, 24 anos, criar um projeto fotográfico que colocasse mulheres gordas em evidência. Após fazer cliques de mais de 100 pessoas, o ‘Eu, Gorda’ chega a capital baiana nesta sexta-feira (2).

“Tenho muitas seguidoras de Salvador. Sempre pediam para eu ir. Eu sei o quanto essas coisas mais diferentes, essas causas sociais voltada pra um nicho – principalmente pro nicho gordo – chegam pouco. A gente vê isso no nosso dia a dia: faltam lojas, falta inclusão. Levar meu projeto para Salvador faz parte da minha decisão de levar as coisas cada vez mais longe, principalmente as mensagens de amor, decompreensão, de inclusão e representatividade”, conta Milena, que hoje soma mais de 44 mil seguidores no seu perfil do Instagram, o @olhardepaulina. Por lá, ela posta fotos do projeto, que começou em 2016, na cidade de São Paulo, e já está rodando o país.

 

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Eu, gorda.⠀ na foto: @camilabolinha @sulianesantos_ @saraduim @francielle_gomes_oficial ⠀ na make: @porlidilima ⠀ nos kimonos: @chaua.atelie

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o meu corpo é festa,⠀ e então eu o celebro.

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Coletivo “Eu, gorda” nas Dunas da Joaquina, na cidade de Florianópolis.

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“A minha expectativa sempre é boa. Gosto de deixar o coração aberto pra só vir coisas boas. Todo mundo gosta dessa troca de carinho e eu estou aberta a dar e receber esse tipo de coisa. Eu já encontrei isso aqui, no primeiro dia. Está sendo muito incrível. As fotos daqui vão todas para o meu projeto, que quero que chegue para cada vez para mais mulheres”, ressalta. Além de fotografar seis garotas para o ‘Eu, Gorda’ no feriado de Finados (ainda restam duas vagas; mais infos via Instagram), ela também pretende clicar outros da terra do dendê: “Quero fotografar pelos pontos turísticos, conhecer a cidade e, principalmente, conhecer as mulheres daqui e a cultura do corpo daqui. Quero sentir mais sobre a liberdade e sobre como o povo baiano lida com os corpos gordos e fora do padrão”.

Representatividade
A ideia do ‘Eu, Gorda’, destaca Paulina, é contar histórias que muitas vezes foram silenciadas ou violentadas e ainda mostrar a beleza da diversidade dos corpos. Com pouca ou nenhuma roupa, as mulheres posam para a retratista, que não só faz fotos dessas mulheres – que fogem do padrão considerado ideal pela sociedade – como as ouve e acolhe. O projeto dá nome a seu coletivo e também é extremamente pessoal: “Um grito, que sai do fundo da minha alma, por mudança, por arte, por beleza, pela humanização do corpo gordo, que grita basta, a todos os tipos de violações aos nossos corpos!”, exclama.

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Faz parte ainda de um processo muito mais longo e profundo. Quando criança, a fotógrafa passou por situações que a fizeram apagar a existência do seu próprio corpo. “Eu não me via, não me enxergava. Trabalhei muito para ser uma pessoa muito além daqueles acontecimentos, me esforcei para ser a melhor versão de mim em tudo o que fazia. Mas nunca foi suficiente. Eu ainda olhava meu corpo e não entendia nada sobre a existência dele. Eu ainda acreditava que era inferior apenas por morar neste corpo. Eu ainda acreditava que meu corpo era uma ofensa aos olhos dos outros. Eu ainda acreditava que se eu pegasse uma tesoura e cortasse a flacidez do meu corpo, tudo ficaria bem”, lembra Milena.

Fotógrafa Milena Paulina, 24: projeto faz parte do seu processo de libertação
(Foto: Bárbara Medeiros/Divulgação)

Foi nesse momento que a fotografia chegou a ela: através de um ensaio da modelo Jacqueline Jordão, que ela viu na internet. “Eu, que sempre vi a fotografia como a arte mais fiel para contar a história de alguém, não achava pessoas que contassem histórias de mulheres semelhantes a mim, e quando achava, era uma foto entre 500, de mulheres totalmente ‘dentro dos padrões aceitáveis’, como se a mulher gorda fosse uma cota. A primeira vez que eu vi um corpo gordo, semelhante ao meu, em forma de arte, eu soube que era aquilo que eu precisava: representatividade. Era aquilo que minha alma precisava”.

Foi com uma fotografia de Jacqueline Jordão que Milena se sentiu representada pela primeira vez; depois, ela já fotografou Jacqueline
(Foto: Milena Paulina/Divulgação)

Para ela, a representatividade – essencial para qualquer pessoa, especialmente para as minorias políticas – abre portas, promove discussões e amplia espaços. “Você se sentir representada – de uma forma humana e com muito amor, é claro – te faz se sentir ‘normal’, mesmo que o resto das pessoas tentem provar o contrário”, defende.

(Foto: Milena Paulina/Divulgação)

Inspiração
Apesar de hoje ter a ciência que seu projeto serve se inspiração para milhares de pessoas, que a acompanham através das redes sociais, e funciona como cura para outras dezenas, que são fotografadas e têm sua autoestima e amor-próprio resgatados, ela revela que o ‘Eu, Gorda’ também faz parte do seu processo de cura diário. “Sempre soube que queria construir algo para outras mulheres. Quando eu percebi que além de ajudar outras mulheres, semelhantes a mim, eu também poderia me ajudar, esse projeto nasceu”, resume.

Modelo Julia Rodrigues
(Foto: Milena Paulina/Divulgação)

Além de construir a representatividade que ela e muitas mulheres buscam, o ‘Eu, Gorda’ quebra vários esteriótipos e padrões através de mensagens como a de que é possível se permitir, se redescobrir, se enxergar com mais amor, se conhecer melhor e se orgulhar de toda a sua história. “É possível se reunir com outras mulheres e ter a certeza de que não estamos sozinhas. O projeto quer mostrar para todas as mulheres gordas quem elas realmente são e tudo o que podem fazer e ser; quer mostrar o quanto um corpo gordo também é humano e o quanto ele pode brilhar”, explica a fotógrafa. Milena acrescenta que lida com a nudez de maneira normal, humana e sem tabus – muitas vezes usa a sua nudez para as fotografadas fiquem à vontade e se sintam seguras.

Modelo Duda Sodré
(Foto: Milena Paulina/Divulgação)

Ensaio
Assim como acontece em outros estados, na data e local combinados, a fotógrafa se encontra com até seis mulheres, que são fotografadas no mesmo dia. Antes das fotos, Milena conduz uma roda de conversa, que ela considera essencial para o processo das fotos. “Todas chegam apreensivas, algumas mais e outras menos. Começamos o dia cedo, nos reunimos para uma roda de conversa onde todas têm voz e vez. Todas nós, mulheres gordas, ouvimos constantemente que devemos nos cobrir ou nos esconder, e não é fácil ir contra tudo isso. Na conversa, falo o quanto eu estou orgulhosa de cada uma apenas por elas estarem fazendo isso por si mesmas, por estarem resistindo. Eu, que nunca tive uma amiga gorda, sei o quanto me fez falta conversar com alguém e me sentir compreendida e acolhida, então nesse dia eu quero que todas tenhamos isso”, explica.

(Foto: Milena Paulina/Divulgação)

Após a conversa, os ensaios individuais começam e eles serão o resultado de toda essa conexão. No final de tudo, depois de ter compartilhado histórias e sentimentos, o grupo acaba virando uma família. Milena, por sua vez, faz parte de um momento libertador e muitas vezes decisivo na vida dessas mulheres: “É uma responsabilidade que eu vejo sendo tratada como nada por muitas pessoas que se dizem ‘fotógrafos emponderadores’. O que eu crio ali com aquelas mulheres, pode levantar ou afundar todos os sentimentos que ela possui. Eu venero a vida de cada mulher que posa paras minhas lentes, e devo tudo a elas. Esse sentimento de ‘permissão’, de poder estar lá e se sentir viva, se sentir livre, se sentir única, é algo que nós queremos sentir sempre depois que conhecemos o gosto”.

Modelo Luiza Junqueira
(Foto: Milena Paulina/Divulgação)

Serviço
O quê: Projeto ‘Eu, Gorda’
Quando: Dia 2 de novembro (sexta-feira)
Onde: Salvador, Bahia (local a combinar com a fotógrafa)
Mais informações: Pelo Instagram @olhardepaulina e através do e-mail olhardepaulina@gmail.com

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