Artigo: “Se para a minha médica só magros são saudáveis, eu digo a ela que não”

Se o mito de Narciso dita quem é belo, a magreza dita quem é saudável…

Por Analú Ribeiro*

Começo dizendo que esse texto é um fato real, que aconteceu com esta criatura que vos escreve. Este não é um daqueles textos de autoajuda, muito menos de lamúrias e reclamações de uma criatura que está com sobrepeso. Este é apenas um relato de uma pessoa saudável e indignada.

Em novembro de 2015 percebi que estava acima do peso (coisa que já não acontecia há alguns anos). Até então tudo normal. Devia ter comido algumas besteiras, preocupações, ansiedades. A gente sempre procura uma culpa para a gordura indesejada! Como pessoa saudável que sou, apesar de frequentar a academia regularmente, resolvi ir à endocrinologista para averiguar como estava minha situação clínica. Mal sabia eu que aí viriam as preocupações.

A médica com a qual me receitei de cara já veio dizendo que eu estava “cheinha” e me passou uma bateria de exames. Retornando com os resultados ela me passa uma dieta fervorosa onde não podia comer praticamente nada e um remédio que me custou a vida, de tão caro que foi. Segundo ela, o remédio não era apenas para emagrecer, mas para ajudar na regularização do meu colesterol e de algumas taxas hormonais que estavam alteradas.

Segui a dieta, tomei o remédio e dentro de dois meses perdi quase três quilos. Era pouco, mas já era alguma coisa. Na consulta de retorno, a minha surpresa: só magros são saudáveis. Senão for isso, eu estou ficando louca. A senhora doutora vira para minha pessoa e diz que emagreci muito pouco (como eu já esperava). Após sua aferição do meu peso, ela me vem com mais uma receita de remédio para que eu compre. E o valor? Prefiro não comentar! Antes de me levantar da sala, pergunto se ela não iria repetir os exames e, calmamente ela me respondeu: não, você tem que emagrecer mais.

Confesso que por alguns instantes eu pensei que só era saudável quem estava magro. Mas me recordei de tantas pessoas magras que não tem o mínimo de capacidade para aguentar uma hora na aula jump ou então meia hora na zumba. E, aí o que me dizem? Pois bem. Coincidentemente logo após ter passado por essas crises existenciais da magreza x gordura, fui à uma médica clínica fazer os exames rotineiros de todo início de ano. Ao ver os resultados no site, uma surpresa: a gorda aqui estava com todas as taxas de colesterol e açúcar regulares, sem alterações.

Se para a minha médica só magros são saudáveis, eu digo a ela que não. Se os profissionais são os primeiros a regularem os corpos humanos, como poderemos viver bem nesse mundo? É um saco se só pelo fato de ir à academia as pessoas te julgarem mal se você toma um refrigerante de vez em quando, come um acarajé ou até mesmo enfia o pé na jaca no lanche da tarde. Não estou querendo dizer com isso que se pode comer tudo, mas também não podemos nos privar de tudo.

O mundo cada dia fica mais chato e as pessoas também. Eu não quero ir para a academia virar panicat. Quero apenas manter minha saúde. Não quero comer salada por que é bonito, mas por que eu gosto e acho bacana. Não quero deixar de comer besteira no fim de semana, por que preciso disso para sair da rotina. Não quero deixar de viver, por que o mundo me julga. Se estou alguns quilos acima do peso, paciência. Mas, isso não quer dizer que não tenho saúde para mais alguns longos anos de vida.

*Analú Ribeiro é estudante de jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA.

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