Angustiante, Dois Pesos, Duas Medidas expõe gordofobia nossa de cada dia

Dois Pesos, Duas Medidas é, sem dúvidas, um dos melhores espetáculos e também um dos mais angustiantes que já assisti na vida. Explico: enquanto gorda, é impossível não me identificar com quase todas as situações apresentadas pelos atores Daniel Calibam e Fernanda Beltrão, que protagonizam a peça dirigida por João Guisande.

Em um pouco menos de 90 minutos, a obra aborda diversas questões ligadas ao corpo gordo, como a pressão estética para atingir o padrão de beleza considerado ideal pela sociedade desde a infância, o bullying na escola, a normalização da cirurgia bariátrica, além da gordofobia diária, dos preconceitos e das crises de ansiedade.

Antes de tudo preciso ressaltar que, nesse mundo em que o corpo magro está estampado e é glorificado nas capas de revistas, televisão, propagandas, redes sociais, etc, é muito representativo ter um espetáculo protagonizado por dois atores gordos.

Logo na primeira cena – em que os protagonistas evidenciam suas relações conflituosas com a balança – pensei que não aguentaria assistir ao restante do espetáculo. Ouvi algumas risadas vindas da plateia e me questionei: Como é que o sofrimento de alguém pode ser motivo de riso para o outro? Por que o corpo gordo é visto como piada? Foi torturante reviver por alguns minutos os dilemas que passei ao longo da vida e ainda passo por conta do meu peso.

Mal sabia que esse é apenas o começo de um longo processo provocativo para que o público se questione, reflita e enxergue beleza nos corpos diversos – passando pelo processo de entendimento e superação com os próprios protagonistas.

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Sem uma dramaturgia linear e bastante fragmentada, o destaque da peça vai para os dois artistas gordos, que se utilizam da palhaçaria, da tragicomédia e do grotesco para compartilhar suas experiências e vivências pessoais. São lembranças e traumas como o desfile de princesa do colégio; dietas infindáveis; apelidos pejorativos nos ambientes familiar, estudantil e social; exclusão e reclusão social; superação e autoestima.

Três cenas merecem ser citadas. Em uma delas, muito simbólica, Fernanda envolve Calibam com uma fita métrica e ali são questionados muitos estereótipos em relação ao corpo gordo. Em outra, os atores mostram suas individualidades, levando em consideração que esses corpos gordos têm pesos e estéticas diferentes. Fica claro que gordo não é sinônimo de doença e nem de coisas negativas como feiura, preguiça, gula, desleixo, etc. O auge do espetáculo é um texto emocionante e libertador declamado por Fernanda que representa o momento do ‘dar-se conta’. Essa é a hora de fazer as pazes e de perceber que “o corpo gordo que você se envergonha é lindo”.

Com poucos elementos cênicos, nenhum cenário e muita dança, o espetáculo traz ainda músicas cantadas ao vivo. Algumas fazem parte de momentos mais leves, que incluem até um tom de nostalgia, com jingles comerciais famosos dos anos 1980 e 1990. Mas a mesma leveza que provoca humor também é responsável pela reflexão.

Me incomoda, porém, a recorrente – e proposital, segundo os atores e diretor – associação de gordura à comida. Afinal, nem todo gordo é gordo porque come muito. Existe uma série de fatores que pode interferir no peso das pessoas. Apesar de reforçarem esse clichê justamente para questioná-lo em algumas cenas, isso nem sempre fica evidente, o que pode contribuir – mesmo que indiretamente – para reforçar um estereótipo ao invés de quebrá-lo, como se propõe a obra. “O clichê também gera reflexão”, explicou Calibam ao final do espetáculo. A julgar pelos comentários após a peça, nem todos entenderam isso.

Independente disso, Dois Pesos, Duas Medidas é um grande exercício de empatia. Espectadores podem colocar-se no lugar das pessoas gordos, refletir sobre preconceitos, sobre as crueldades que um gordo vive nessa sociedade e começar a exercer o respeito. Para mim, mulher gorda, funcionou quase como uma terapia. Atravessei novamente pelas dores e lutas de ser fora do padrão nesse trabalho visceral e pude ressignificá-las junto com os atores.

Serviço 
O quê: Dois Pesos, Duas Medidas – com Daniel Calibam e Fernanda Beltrão
Quando: Quintas e sextas, às 20h, até 13 de dezembro
Onde: Teatro Sesi Rio Vermelho
Ingresso: R$30 (inteira) | R$15 (meia)
Venda: Bilheteria do Teatro e no link www.sympla.com.br/doispesosduasmedidas

Ficha técnica 
Dramaturgia – Daniel Calibam, Fernanda Beltrão e João Guisande
Direção – João Guisande
Elenco – Daniel Calibam e Fernanda Beltrão
Coreografia e assistência de direção – Mônica Nascimento
Direção musical e trilha sonora – Luciano Salvador Bahia
Iluminação – Alisson de Sá
Figurino – Fernanda Beltrão e Guilherme Hunder
Assessoria de Imprensa – Théâtre Comunicação / Rafael Brito Pimentel28

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