‘Amar seu corpo é ir contra tudo o que te ensinaram’, diz Alexandra Gurgel

Criadora do canal Alexandrismos no YouTube, hoje com 350 mil inscritos e 16 milhões de visualizações, a jornalista Alexandra Gurgel, 29 anos, lança seu primeiro livro, Pare de se Odiar: Porque Amar o Próprio Corpo é um Ato Revolucionário, na próxima segunda-feira (24). Essa é primeira obra brasileira a abordar temas como body positive (movimento que prega o amor ao corpo, independentemente do formato) e gordofobia.

Em 154 páginas e cinco capítulos, a autora alerta sobre questões corporais, como pressão estética e preconceito, e questiona os padrões impostos pela sociedade, levando a reflexões sobre o corpo. Confira entrevista completa com a youtuber, jornalista e militante, que falou com o CORREIO sobre preconceito, bem-estar e sobre o processo de escrita do seu livro. Deu ainda dicas para quem quer trilhar o caminho do amor próprio.

Como você explicaria o livro para quem ainda não conhece?
É um livro sobre uma mulher, que sempre foi gorda – cresceu como uma criança gorda e adolescente gorda – passou por todos os problemas e situações que uma pessoa que é gorda desde sempre passa, como tentar se encaixar. Eu conto a minha história no começo do livro justamente para a pessoa entender onde eu estava, onde cheguei e como eu cresci. É a primeira vez que a minha história está sendo contada de uma forma linear, em um lugar só. Estava espalhada em vários vídeos. Não é uma história diferente das outras pessoas gordas. Só não foi falada ainda. É uma vivência que ainda não é tão amplamente vista de uma pessoa gorda, que sofre gordofobia e que sofre por causa do seu corpo. E que tenta se encaixar a todo custo e faz de tudo para se encaixar, com remédios e dietas malucas, anorexia, bulimia, compulsão e desenvolve tendências suicidas e depressão até fazer uma lipo, entrar numa faca para ver se emagrecia, e depois disso tentar se matar.

Essa minha vivência toda é contada para a pessoa entender como é tão maléfica essa indústria da beleza, essa indústria do padrão de beleza, que você tem que ser magra a qualquer custo, e que se você não for magra e não for do padrão, está errado, tem algum problema e você tem que continuar buscando e lutando e fazendo de tudo para ‘chegar lá’.

Sobre a obra: custa R$ 29,90 e tem como editora a BestSeller | Grupo Editorial Record. O lançamento oficial acontece segunda-feira (24), nas livrarias. Pré-venda nas lojas online da Amazon, Cultura e Saraiva
(Foto: Reprodução)

O livro foi feito para quem?
Para mulheres – porque é meu público, minha vivência. Meu público é 90% feminino, principalmente de 18 a 24 anos. Eu penso muito nelas, mas tem gente mais nova que está lendo e está gostando, tem gente mais velha que está lendo e está gostando e tem homens que estão lendo e estão gostando. Vai muito além do público específico. Eu falo com as mulheres, mas meu editor, por exemplo, é um homem e ele diz que o livro mudou a vida dele.

É para todo mundo que está querendo dar um grito de liberdade em direção ao caminho do amor próprio. Amar o próprio corpo é um ato revolucionário e é isso que eu vou mostrando e provando ao longo do livro inteiro.

Mostro como se amar e se aceitar é um puta ato revolucionário. E se aceitar não é se conformar. Conformismo é quando você aceita uma coisa de bom grado e sem questionamentos. Aceitação é quando você aceita algo com questionamento – você precisa aceitar, se questionar, entender. O livro inteiro é para você se questionar, do início ao fim, sobre você. É autoconhecimento. É uma coisa muito íntima, de quem tá afim de conhecer a minha história, o meu argumento e depois entender que, a partir dele, tem todo um apoio para você começar o seu processo de desconstrução. Você vai entender que é uma parada muito íntima e que só você pode fazer.

(Foto: Caio Cal/Divulgação)

Qual seu objetivo com ele?
Quero justamente que as pessoas se libertem. A primeira coisa importante é a gente entender a nossa sociedade, entender o meio que a gente está, e abrir os olhos. Muitas vezes a gente não se pergunta o porquê das coisas e não se pergunta como as coisas funcionam. Então eu começo a indagar do comecinho mesmo até o final. É para a pessoa entender que ela que vai ter que se questionar e conseguir as coisas. Ela não tem que ficar seguindo o que as pessoas falam. É para pessoa entender que ela não é obrigada a seguir o que falam para ela, o que impuseram para ela e que ela pode realmente andar pelos próprios pés sem esperar validação alheia, o que é muito difícil, mas é essa a proposta. Eu espero que as pessoas terminem o livro e pensem “eu posso começar a minha vida. Eu não preciso esperar ter um ‘corpo perfeito’, eu posso começar agora. Eu desconstruo justamente essa ideia de ‘corpo perfeito’.

O corpo perfeito é o seu corpo.

Como surgiu a ideia do livro? Você diz que o processo dele foi muito intenso e complicado. Por que?
Eu fiz em 40 dias e só escrevi de fato nos últimos dez dias. Foi difícil porque, como sou jornalista, achei que ia ser mais fácil. Foi muito difícil. Mas difícil mesmo foi montar a estrutura do livro, que foi a primeira coisa que eu fiz. Como começa com a minha história, foi bem difícil revisitar, entender porque eu fiz uma coisa ou outra e porque eu tentei me matar. No livro eu falo que me matei, porque eu fui socorrida. Eu decidi me matar. Eu realmente fiz o que eu tinha que fazer e fui socorrida. Foi a parte que mais me pegou porque, apesar de ter tratado na época, voltar para essa história hoje em dia é difícil, porque eu tive que pensar a partir de outro ponto de vista, com 29 anos. Isso aconteceu quando eu tinha 23. Não é um assunto fácil, porque não tem como eu ter concretamente a minha história. Foi bem complicado voltar para isso, mas também foi muito bom. Foi o que me deu mais gás para continuar com o resto do livro e com outros assuntos para combater isso. Ao mesmo tempo, me fez ver que eu cheguei até onde cheguei até tentar me matar de fato e, hoje em dia, estou combatendo isso, estou fazendo um livro para ajudar as pessoas a combaterem isso, para a saúde mental delas e para a saúde física também. Porque aceitação é para saúde física também.

Como você pensou e dividiu o livro? Qual linha você seguiu?
Começa com minha história, para a pessoa entender onde eu cheguei, quem sou eu, mas é bem rápido. A minha história acaba quando eu estou com um ano de canal. O segundo capítulo, “Como eu descobri que me odiava”, o maior do livro, é o que falo da sociedade, do machismo, de pressão estética, anorexia, bulemia, compulsão alimentar, falo do conceito de ódio próprio… Falo de gordofobia no final desse capítulo e assim fica autoexplicativo. Porque todos os exemplos que eu dou, de body shamming (humilhação corporal), de ridicularização de corpo, são com pessoas magras. Faço isso de propósito, porque se a mulher magra e muitas celebridades sofrem tudo o que eu cito no livro, imagine uma mulher gorda.

Eu falo o tempo inteiro de recortes, de privilégio, para a pessoa entender que não é só isso. Que não é só ser magra ou ser gorda, pode também ser negra, LGBT, pode ser a classe mais baixa. É importante a pessoa entender a noção de privilégio.

O terceiro capítulo, “Autoconsciência e body positive”, é para a pessoa entender tudo o que falei no segundo capítulo e assimilar isso tudo e entender o que fazer a partir disso. Eu tive que pensar a minha história e como foi meu processo de desconstrução para criar um processo para a pessoa entender que ela está sozinha nessa (mas ao mesmo tempo não está). É um processo individual e íntimo e entender que a culpa não é dela pelas coisas que ela sofre. Depois, explico o conceito de body positive e é a primeira vez que é falado, no Brasil, sobre equidade entre os corpos. No body positive, você se olha de forma positiva, mas não ignora o lado negativo – você trabalha ele, porque assim você vai evoluir. Entende que você não tem defeito, porque você não é uma lata velha. Entende se beleza é sentimento e se existe pessoa feia. Tem um FAQ (perguntas frequentes) sobre body positive no terceiro capítulo, que eu respondo as principais perguntas sobre o tema.

Já no quarto capítulo, “Colocando em Prática o Amor-Próprio”, trago dicas. Falo que são dicas práticas, porém não muito. São dicas para você realmente botar em prática o seu processo de desconstrução como tirar pessoas tóxicas da sua vida, rever os ambientes que você frequenta, aprender a se proteger, fazer as pazes com a sua família. E, no final, tem uma paginazinha com o final da minha história e acaba o livro. Está bem direto ao ponto. Está uma linha de raciocínio inteira. Acho que vai ser interessante para quem ler o livro e gostar começar esse processo de desconstrução e se amar, se aceitar. E entender que não é fácil: eu não passo a mão na cabeça da pessoa. Não falo “você é linda, maravilhosa”. Eu falo pra pessoa se ligar, acordar, ver que ela é privilegiada de ter acesso a esse conteúdo, que tem muita gente que nem sabe o que é aceitação, que está mais preocupada em botar dinheiro na casa, para botar comida na mesa.

Eu dou um tapa na cara da pessoa, mas também faço carinho do outro lado. É bem do jeito que eu sou. É bem para a pessoa acordar, mas com amor.

Por que se amar é um ato revolucionário?

Amar o seu próprio corpo é um ato revolucionário porque é ir contra tudo o que te ensinaram, ir contra tudo o que foi construído em você. É ir contra tudo o que se pensa sobre corpo, sobre beleza, sobre padrão. É ir contra toda a maré que está nadando em uma direção e você está na direção contrária.

As pessoas que estão remando nessa direção contrária não estão remando com facilidade. Ninguém está indo contra a maré com facilidade. Não está sendo fácil. É muito difícil quebrar e desconstruir padrões. Infelizmente, a grande massa não pensa assim. É um pouquinho aqui, um pouquinho ali, por isso a gente precisa de cada vez mais gente, por isso que sempre que eu falo de corpo e do meu trabalho eu sempre falo que não é sozinha que se consegue nada. A gente junta vai muito mais longe. É por isso que eu não faço nada sozinha. Eu tenho um coletivo, que é a Volume, que a gente tem a marca Toda Grandona. A gente tem marca, a gente tem festa e a gente se ajuda. Pessoas gordas. A gente precisa realmente viver a gordoridade. É isso que consegue salvar. A gente vai dando a cara a tapa. É muito difícil nadar contra a maré, principalmente sozinha. Junto a gente consegue ir mais longe, mais forte e a gente consegue continuar. Sozinho a gente acaba sendo levado.

Por que a sociedade está sempre seguindo “padrões”? Na sua opinião, de onde vem isso? Da medicina? Do capitalismo?
A nossa sociedade é capitalista e, a partir do capitalismo, nascem todas as opressões. O machismo é a raíz de todas as opressões, a raíz dos problemas. A partir dele, surgem as outras opressões. As opressões principais que eu falo no livro, a pressão estética e a gordofobia, vêm do machismo. Se a gente foi pegar na origem de tudo o machismo está ali, de mãos dadas com todas opressões. E temos o machismo em uma sociedade capitalista, que visa o lucro, que tudo é comerciável e pode ser vendido.

É justamente disso que trata o livro. Tem uma parte do livro que eu falo disso: o corpo é um produto, se torna um produto. Porque tudo no seu corpo pode ser comprado, adiquirido, moldado. Eu posso comprar um creme para clarear meus dentes, posso comprar um aparelho que vou passar no rosto e ele vai deixar minha pele mais perfeita. Eu posso comprar uma cinta que vai me apertar e vai diminuir medidas, eu posso comprar um shake que vai substituir uma refeição. Eu posso comprar remédios, posso comprar um peito, uma bunda, uma boca nova, um rosto novo, posso comprar cabelo. Eu posso comprar tudo. Tudo pode ser modificado. É como se a gente fosse lata velha, que vai sendo modificada. Lataria é imperfeita e a gente tem que tornar ela perfeita.

A nossa sociedade está sempre seguindo padrões porque ensinam isso pra gente desde sempre. A gente vai seguindo isso e vai achando normal. Acham normal uma adolescente botar uma boca, aplique, botar isso, botar aquilo.

Não é a toa que aumentou o número de cirurgias plásticas e estéticas em adolescentes. Foram 90 em 2015. O próprio médico da Kylie Jenner, que colocou preenchimento labial com 16 anos, fala que acredita que foi por isso que o número de cirurgias aumentou. É uma sociedade que está doente, em busca de um corpo perfeito, em busca de ‘chegar lá’. O que é chegar lá? Porque você nunca chega lá. E você não olha ao seu redor e continua seguindo e não se pergunta o porquê das coisas. A gente continua seguindo os padrões porque é muito mais fácil seguir o que ensinaram pra gente do que questionar o que foi ensinado. As pessoas têm preguiça e preferem continuar do jeito que elas estão. Preferem se conformar do jeito que estão na sociedade. Continuam se matando e se odiando e fazendo de tudo para alcançar uma coisa que você nem sabe mais se você quer e você nem sabe mais o que é. Você consegue uma coisa, mas quer outra e outra e não acaba.

(Foto: Caio Cal/Divulgação)

Falando em bem-estar, você defende que gordo não é sinônimo de doença e que magreza também não é sinônimo de saúde. Qual seu ponto de vista?
Falar de saúde é uma coisa polêmica. Até então, o que se entende de saúde é que, se você é magro, você é saudável, e se você é gordo, você é doente. A principal luta contra gordofobia e também do movimento bodypositive – que é a equidade entre os corpos, para que todos os corpos sejam tratados da mesma forma – é justamente despatologizar o corpo gordo. Não é porque eu sou gorda que eu sou doente. Isso é polêmico porque quando falo isso eu vou contra a Organização Mundial de Saúde (OMS) – que fala que obesidade é doença. Eu não estou falando que obesidade não é doença, não estou falando que sou a favor da OMS e nem contra a OMS. Estou falando que eu não me identifico enquanto obesa porque eu não sou doente só porque eu sou gorda. . Eu tenho meus exames, eu tenho minha vida, levo uma vida com hábitos saudáveis, faço o máximo para ter hábitos saudáveis. Não sou uma pessoa doente só porque o meu IMC diz isso.

Nutricionista defende que o IMC é insuficiente para avaliar a saúde das pessoas

Já há várias vertentes, com pesquisas, que provam que não é porque você é gordo que você é doente e vai morrer. Não é porque tenho um IMC tanto que eu automaticamente sou doente. Eu não acredito nisso. Não levo isso em consideração na minha vida. Pode ser que algumas pessoas achem que eu estou fazendo apologia à obesidade, mas não. Estou fazendo apologia à saúde mental. Eu não sou obesa. Eu sou gorda.

Acho que as pessoas tem mais dificuldade de falar que são gordas do que são obesas. As pessoas têm mais facilidade de aceitar que são doentes do que são apenas gordas. Porque ser gorda é ser fracassada. É isso que a sociedade vende o tempo inteiro. Porque o corpo padrão é um status de que você conseguiu. É um status de que você é vencedora, de que você é guerreira, de que você superou e de que está acima dos outros. Se você é gorda você é uma fracassada, uma desleixada, teve que se conformar e se aceitar. É isso que as pessoas acham.

É muito engraçado, porque se você vê uma pessoa fumando na rua, ninguém vai parar a pessoa e vai falar para ela parar de fumar que faz mal. Agora se você vê uma pessoa gorda, você fala para não ficar igual ela. É doente. E a pessoa magra passa e você não está nem aí. Ela é magra, ela é saudável automaticamente. Você não viu exame de sangue, não viu nada. A preocupação não é com a saúde. A preocupação é com a aparência. A pessoa gorda é ridicularizada, porque ela não tem direito de viver e de existir como a outra pessoa que é magra ou que está naquele padrão “porque é desleixada, ou de cropped e biquíni enquanto eu estou me matando aqui na academia. Tem que ter bom senso”. Se amar e se aceitar é muito difícil por causa disso.

Não é porque eu sou magra que eu sou saudável e não é porque eu sou gorda que eu sou saudável. Não é porque eu sou magra que sou doente e nem porque sou gorda sou doente. Já está mais do que comprovado que são hábitos saudáveis que fazem de alguém saudável. E o sedentarismo é principal fato para doenças.

Você precisa ter hábitos saudáveis para ser saudável. Se você põe uma pessoa magra, que fuma, bebe, usa drogas, e uma pessoa gorda, que tem uma vida com hábitos saudáveis; quem é a saudável da questão? Para a sociedade é a magra. Porque a gente vive em uma sociedade que pessoa pega uma gastroenterite, emagrece nove quilos em uma semana, e as pessoas querem pegar essa mesma doença. Somos todos hipócritas. Ninguém está interessado na saúde do outro, só está interessado no corpo. Um grande caso que eu cito é o da Nara Almeida. Ela era instagrammer e morreu de câncer. Durante um tempo com a doença, ela foi emagrecendo e ficou anorexa e as pessoas desejavam ter o corpo dela. Comentavam na foto dela que queriam pegar esse câncer.

(Foto: Caio Cal/Divulgação)

Por que você defende que a aceitação promove o bem-estar e abre portas para uma vida digna?
A aceitação é uma prerrogativa para você viver, para você começar sua vida. Quando você não se aceita, você espera tudo para começar a viver. Espera ter o corpo perfeito para começar a viver, para ter um namorado, para finalmente usar branco no Réveillon, para tentar aquele emprego, para pedir um aumento, para dar em cima do cara que você tá afim… E você nunca vai ter o corpo perfeito porque você nunca está satisfeita. E você não vai ‘chegar lá’ nunca. E você vai ficar esperando, esperando, deixando de sair com os amigos, deixando de ir à praia, deixando de viajar e de viver, em prol de uma coisa que nunca vai acontecer. Por mais que você emagreça, fique malhada, tonificada e com o corpo que todo mundo diga que é perfeito, você vai continuar querendo mais. E quando é que você vai começar a viver, minha filha?

É bem-estar porque não é só saúde física, é saúde mental também. Que preço a sua saúde mental paga para chegar nesse corpo perfeito? Se aceitar é o primordial para você realmente viver uma vida de bem-estar, com uma saúde mental saudável.

Não apenas a saúde física, que também é importante. É você começar um movimento de fazer as pazes consigo mesma, de parar de ter um relacionamento abusivo com você mesma, e começar a se amar. O relacionamento abusivo que a gente tem que dura mais tempo é o que a gente tem com a gente mesma e não dá para vencer uma guerra, quando a gente luta com a gente. Vamos sair perdendo, de qualquer jeito.

Pode falar explicar a diferença entre pressão estética e gordofobia?
No livro, eu começo falando de pressão estética e falo que a gordofobia vai muito além da pressão estética. Para falar de pressão estética, a gente considera que a nossa sociedade é machista e patriarcal, e pega lá do começo, da nossa construção social. Nós somos construídos pelos nossos pais, nosso amigos, avós, tios e tias, colegas da escola e depois da faculdade… Nossos papéis de gênero são definidos aos seis anos de idade. Com essa idade, eu já entendo que, como eu nasci menina, fui criada como uma menina, eu tenho que gostar de rosa, tenho que ser uma menina delicada, não posso sentar de perna aberta, não posso falar palavrão, tenho que ser maternal, tenho que ser sensível. Tenho que ser mulher… Tenho que gostar de maquiagem, tenho que ser perfeita. E o menino é criado para ser o esperto. O homem poderoso. Forte, destemido, assertivo. O maior elogio para uma menina é que ela é bonita, e para o menino que ele é esperto, inteligente. Nos elogios para as crianças a gente já consegue ver essa diferença no tratamento. Enquanto as mulheres são elogiadas pela sua beleza, os homens são elogiados por suas capacidades.

Justamente porque somos criadas dessa forma, principalmente as mulheres – para sermos perfeitas, uma princesa, a espera de um príncipe. E o príncipe, falando de forma heteronormativa, nunca vai querer uma princesa que não esteja em perfeitas condições – que está dentro do padrão, que cumpre todos os padrões estéticos de beleza e de feminilidade. Padrão de beleza não é só padrão estético (a forma que ela tem que ser para ser aceita), é também padrão de feminilidade também – tem que ser maternal, fofa, atenciosa, delicada. A gente vai aprendendo que tem que ser perfeita para conquistar alguém.  E é daí que nasce a rivalidade entre as mulheres, porque fica todo mundo disputando para quem vai ser a mais perfeita, a mais interessante, para ser escolhida pelo príncipe.

Só que pressão estética – essa pressão para ser perfeita…. O exemplo que eu dou, muito claro, é o da Dilma Rousseff, única mulher que foi presidente. Quando é que falamos de corte de cabelo, de cor de esmalte e de maquiagem, de sensibilidade de um presidente quando não foi uma mulher? Nunca. Nunca se falou do corte de cabelo do Temer, do Lula, ou do Fernando Henrique Cardoso, ou se eles estavam gordos ou magros, ou se eram sensíveis demais. Porque só se fala e se comenta do corpo das mulheres.

A gente vai crescendo dessa forma e a mulher vai tendo a sua vida cerceada por todos os lugares, porque ela precisa ser perfeita em todas ações dela, se não ela não é aceita e não consegue ter nada na vida. E essa pressão para se encaixar num padrão. Quando você fala de gordofobia é outra coisa. Porque se eu dou autoestima para a mulher que sofre pressão estética, ela vai se sentir melhor, ela vai se sentir bem e vai entender que não é obrigada a nada. Ela vai entender pressão estética e a sociedade que ela está e ela vai começar a não ligar para aquilo e a vida dela vai continuar numa boa. Ela vai nas lojas e vai encontrar roupa, ela vai caber nas coisas e vai continuar sendo a mesma pessoa. É ela que vai mudar. Mas quando a gente fala de gordofobia, a gente fala de falta de acesso, patologização do corpo gordo.

A pessoa que sofre pressão estética que não é gorda, ela não vai ser patalogizada como doente só porque ela está uns quilos acima do peso considerado ideal, ela não vai deixar de comprar uma roupa numa loja, vai ter o que sirva nela. A pessoa gorda não vai ter o que sirva nela. Se a pessoa gorda tiver autoestima, se empoderar, ela vai pisar na rua e vai continuar sofrendo gordofobia. E vai continuar não cabendo nos lugares. Vai continuar quebrando cadeiras, vai continuar deixando ir para certos lugares porque não cabe nas cadeiras.

Tem gente que não vai no teatro porque não cabe no lugar; outros que não viajam de avião porque tem que pedir extensão de cinto e é constrangedor. Tem gente que não vai nem no hospital porque não cabe nem nos aparelhos do hospital. É muito louco porque se a pessoa é vista como doente, nem pra tratar essa “doença” ela consegue tratar porque ela não cabe nas coisuas. E eu não estou falando de pessoas extremamente gordas. Tem casos de pessoas que são um pouquinho maiores que eu e já não cabem numa maca de ressonância magnética.

A gordofobia vai muito além da pressão estética. Pessoas que sofrem com gordofobia, obviamente sofrem com pressão estética, porque a gordofobia é oriunda da pressão estética, mas a gordofobia chega a ojeriza do corpo gordo. Chega a você não aceitar o corpo gordo única e exclusivamente porque ele é deformado, ou seja, fora de forma.

A pessoa gorda é vista como anormal, uma aberração. É engraçado, porque pensam que toda pessoa que é gorda está a espera de uma dieta ou estivesse querendo emagrecer. A pessoa gorda é cerceada por todos os lados. Não é só a cobrança para ser perfeita. É a cobrança para ser magra e, se você continuar sendo gorda, existe uma cobrança para você ser uma gorda que pelo menos siga um estereótipo de engraçada, de inteligente, ou de simpática, ou da gorda que se ridiculariza ou se autodeprecia. Se você se encaixa no estereótipo você é menos ridicularizada. É uma vida muito difícil e sofrida. Quem sofre com gordofobia sobrevive. A pessoa pode ter autoestima para caralho, mas quando ela pisar na rua ela vai continuar sofrendo as mesmas coisas. Por isso que tem que saber se proteger, tem que saber os lugares que frequenta, as pessoas que estão com você. Viver com gordofobia não é ter uma vida normal. Você não vai andar na rua normalmente e, sendo mulher, pior ainda. Porque a mulher que tem um corpo gordo é uma mulher masculinizada, que automaticamente deve ser lésbica. Muita gente pensa que ser gorda é desistir de ser feminina. Todo mundo acha que eu sou lésbica só porque eu sou gorda e sou masculina. Eu não sigo o padrão de feminilidade e nem o padrão estético.

Quais dicas você dá para suas quem quer trilhar o caminho do amor-próprio? Não existe um passo a passo, né?
Eu recomendo que leia meu livro (risos). É porque vai te pegar da forma que for pra te pegar; cada um vai se identificar de uma forma diferente e iniciar um processo. No livro até tem um passo a passo no final. Mas pode ser que a pessoa queira começar de outra forma e fazer de outra forma. Eu falo isso também. Essa foi a forma que eu criei para trilhar um caminho, mas você também pode seguir outro caminho e está tudo bem. Isso é uma coisa individual e muito íntima, então não tem um passo a passo.

Quem quer se aceitar e não sabe como, a primeira coisa que precisa é entender que você não tem culpa das coisas que você passa. Isso não é passar a mão na cabeça da pessoa, é entender que ela não tem culpa das coisas que ela passa.

Ninguém tem culpa de sofrer com o machismo e com a gordofobia. Nunca a culpa é do oprimido.

Entender a sociedade, o meio que se vive, é o primeiro passo mesmo. Abrir os olhos, se questionar, entender se você realmente gosta das coisas, do que você realmente gosta, e porque você quer mudar, daonde vem essa vontade de mudar. Você quer realmente emagrecer? Tudo na sua realmente vai mudar depois que você tiver uma barriga sarada? Ou o cabelo mais comprido? É isso que você quer? É isso que vai definir sua vida? Será que isso vai te deixar mais feliz? Comece a se questionar. Não tem mudança e revolução sem questionamento.

*Texto meu, originalmente publicado nas edições online e impressa do jornal CORREIO

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