‘A aceitação leva a uma vida mais digna’, diz nutricionista

Autora do blog e canal do YouTube Não Sou Exposição, a nutricionista Paola Altheia desmistifica questões sobre a relação entre peso e saúde. Confira.

Muita gente associa gordura a doença. Por que?
Tem uma questão da maneira que se promove saúde – da questão higienista  da coisa  – e também tem uma grande indústria que promete felicidade e que está diretamente conectada com a magreza.

O  corpo magro é diretamente associado a saúde, beleza, sucesso, felicidade, simplesmente porque existe uma indústria fortemente pautada na venda desse ideal de que a magreza, que é sinônimo de realização pessoal e sucesso absoluto. A gente vive exposto a esses “cases” de sucesso falando: “Ah, fulano mudou de vida e resolveu emagrecer”, “a fulana percebeu que ela estava no fundo do poço e ela emagreceu”.

Em relação ao corpo gordo, o que a gente sabe que a obesidade tem co-relação positiva com o risco de desenvolvimento das chamadas doenças crônicas não transmissíveis – diabetes, colesterol alto, dislepidemia, cardiopatia, etc. Mas o discurso da promoção de saúde pautado na questão de peso e medidas que não considera os hábitos individuais. Considera simplesmente as dimensões corpóreas.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Todo gordo é doente?
Não, de forma alguma. Isso é uma generalização absurda.

No Brasil, mais da metade da população está com sobrepeso e obesidade, segundo dados do Ministério da Saúde. Considerar que cada pessoa gorda desse país está obrigatoriamente doente é uma loucura. O que vai definir se uma pessoa está doente é realmente uma avaliação mais detalhada, uma análise dos hábitos de vida daquela pessoa. Você vê a questão dos exames bioquímicos, vê o quanto que o corpo dela está comprometido ou não com o sobrepeso, se ela está com dificuldade de mobilidade ou dificuldade respiratória, se consegue subir uma escada, amarrar um tênis…

Da mesma maneira, nem toda pessoa magra é saudável. Isso porque uma pessoa magra pode estar fumando, pode ser sedentária, pode estar bebendo, pode estar comendo fritura todos os dias… Uma pessoa gorda não é necessariamente doente. A gente precisa avaliar cada situação.

A área de saúde utiliza o IMC – que considera apenas duas variáveis: peso e altura – como forma de classificar se a pessoa é ou não “doente”. Você acha que esse índice é suficiente?  
Ele é insuficiente e extremamente ineficaz na avaliação individual porque nada mais é do que um cálculo de quilo por metro quadrado. O índice é interessante porque é rápido e prático de ser usado em grandes pesquisas com grandes populações. Então, se você vai fazer um acompanhamento de uma cidade inteira e quer ver como que as pessoas da cidade progrediram no sentido da saúde, o IMC é um indicador interessante. Mas, se você tem a possibilidade de fazer uma avaliação clínica e individual, pode avaliar vários parâmetros e fazer leitura de exames, além de ver a aptidão física e perguntar para o indivíduo a respeito da rotina de vida dele, os hábitos, o IMC simplesmente não faz sentido, porque ele não me mostra nada a respeito de função hepática, de capacidade cardiorespiratória, função renal, glicemia, colesterol. Também não sei o quanto daquilo é massa magra (músculos) ou massa gorda (gordura). O profissional precisa usar outros parâmetros para realmente avaliar se a pessoa está saudável ou não.

Você defende que a aceitação promove o bem-estar. Por quê?
Eu defendo a aceitação porque conheço as conseqüências da não aceitação. Pessoas gordas passaram a vida inteira ouvindo que o corpo delas é feio, que elas deveriam se envergonhar, porque elas são preguiçosas, relaxadas, etc, ao longo da vida vão criando uma baixa autoestima, um sentimento de menos valia. E, uma pessoa que está se sentindo assim, deprimida, humilhada, envergonhada, desanimada, não vai ter um roupante de: “vou cuidar da saúde”. Ela não vai ter uma epifania de transformação.

Eu digo que a aceitação leva a uma vida mais digna e a uma qualidade de vida, um bem-estar, porque eu sei que a não aceitação leva a uma vida indigna e diminui muito a qualidade de vida. Isso porque a pessoa que não tem a relação positiva com o próprio corpo, não quer se alimentar bem, ela não quer exercitar, não quer sair, nem socializar. Vai ficar cada vez mais isolada e reclusa e, muitas vezes, esse é o momento que a pessoa acaba criando um relacionamento mais emocional com a comida. Isso acaba perpetuando um ciclo de desanimo que leva a engordar, porque a pessoa não teve o direito de participar da sociedade como uma pessoa normal, que vale tanto quanto todos os outros. Desde a escola ela sofre bullying, recebe apelido, vai aprendendo e assimilando que ela vale menos do que os outros.

O resgate da autoestima e da qualidade de vida e da própria dignidade vem da aceitação. As pessoas que falam que aceitação leva a negligência não entendem a proposta do movimento body positive. Porque é muito simples: “quem ama, cuida”. Se você tem um amor genuíno pelo teu corpo, com respeito, com compaixão pela sua história, por tudo o que você passou; você não vai se agredir, se abandonar e não vai se tratar mal porque o amor desperta a vontade de cuidar. É uma coisa simples.

Basicamente, é o meu dever. Eu não posso fazer diferente como profissional da saúde. Não posso fazer ninguém sentir que vale menos que os outros por ser gordo. É uma coisa que eu não posso fazer e profissional nenhum deveria ou poderia estar fazendo.

Até que ponto o peso influencia de fato na saúde? 
Não podemos afirmar que uma pessoa pode começar a engordar, engordar e engordar progressivamente a olhos vistos e isso não vai ter conseqüência nenhuma pra vida dela. Mas existem questões que a gente tem que levar em consideração: a constituição física daquela pessoa, se ela sempre foi gordinha desde que ela se conhece por gente ou se era uma pessoa magra que foi fazer um intercâmbio na Irlanda e engordou 20 quilos em sete meses. Vai ver é uma pessoa gorda que tem hábitos de vida muito nocivos e muito ruins do tipo é sedentária, fuma, bebe com freqüência, come muito fast-food. Mas pode ser também uma pessoa gorda que hábitos de vida extremamente saudáveis – uma pessoa ativa, que faz atividade física, bebe muita água, come muitas frutas…

De maneira genérica, a gente não pode afirmar nada a respeito de uma pessoa na base do olhômetro. Você não pode colocar o olho numa pessoa e avaliar se ela está saudável ou não só por causa do peso dela ou só por causa do aspecto físico dela. Existem pessoas gordas que, sim, podem estar doentes. Também existem pessoas gordas que são mais saudáveis que muito magro por aí.

As principais complicações do ganho de peso muito exacerbado são a esteatose hepática, a sobrecarga das articulações, do tornozelo, do joelho e isso começa a ficar doloroso pra pessoa, a dificuldade de mobilidade e cardiorrespiratória. Então, a pessoa pode começar a ter algumas dificuldades em relação a isso no dia a dia. Mas assim, até que ponto o peso influencia? Ele influencia da mesma maneira que qualquer outro parâmetro. O nosso estado geral de saúde depende de uma conjuntura de situações. É a minha genética, a minha família, o meu poder aquisitivo, o meu grau de instrução, se eu faço atividade física ou não, seu eu socializo com as pessoas ou não, se eu uso drogas ou não, se bebo com freqüência ou não. O peso é mais um desses fatores que estou elencando. Não é um único e nem o principal.

Como quem não quer emagrecer pode manter o peso e ser saudável?
É muito importante pontuar que ninguém é obrigado a emagrecer e ninguém é obrigado a querer emagrecer. É importante lembrar isso porque a sociedade trata o corpo das pessoas gordas como se fosse domínio público, como se todo mundo pudesse colocar o dedo na cara da pessoa gorda e exigir que ela emagreça – não apenas os profissionais de saúde, em situações que aquilo não é a questão. Muitas vezes a pessoa vai ao médico porque ela está com uma unha encravada, com uma dor de garganta, porque ela quebrou o braço e o médico vem com a história de que tem que perder peso.

Respeitando o desejo legítimo de uma pessoa que não quer emagrecer, ela precisa tomar alguns cuidados. Pra ser saudável – independente do peso – é importante que a bebida alcoólica seja ocasional, de preferência a pessoa não deve ser tabagista, não fumar e ter uma alimentação saudável. Isso é muito importante para todas as pessoas, não interessa se são gordas ou magras. Há uma necessidade do corpo humano à atividade física. O ser humano sedentário começa a adoecer cronicamente, porque a gente tem uma necessidade de movimento para manter a nossa saúde óssea, muscular, articular e até mesmo para regular nosso humor, nosso sono…

Se a pessoa está muito gorda em decorrência disso (falta de atividade física), e ela estiver com dores no joelho, nas costas… É importante fazer um fortalecimento para que isso não seja uma questão. Para a pessoa dar conta de carregar o peso que ela tem, né? Se o ganho de peso for muito repentino, isso pode sim sobrecarregar as articulações. Mas, às vezes, o tratamento não é necessariamente o emagrecimento, mas sim o fortalecimento, uma fisioterapia…

De modo geral, a pessoa tem que se cuidar. Mas isso é um recado que vale pra todos, conforme eu falei. Não interessa se a pessoa é magra ou gorda. A cultura da gordofobia, esse estigma da obesidade, além de ser extremamente negativo para as pessoas gordas, passa uma mensagem de indireta praa as pessoas magras de que está tudo bem, de que a pessoa não precisa se preocupar com nada e nem fazer nada. E não é bem assim: a pessoa magra também tem que se cuidar, né?

Em que momento o peso deve ser efetivamente uma preocupação?
Eu penso que o peso pode se tornar preocupação quando seu ganho é muito repentino, muito exacerbado, de uma maneira que cause um impacto muito grande pro organismo. Quando a gente começa a partir da obesidade grau 3 em diante, que a gente realmente vê que existem algumas complicações clínicas e dificuldade extrema de mobilidade, de freqüência cardíaca e respiratória, começa a ficar uma dificuldade muito grande.

Eu acredito que o peso começa a ser preocupação quando começa a impactar diretamente a qualidade de vida daquela pessoa. Quando a pessoa, o indivíduo, está incomodado, a gente tem que levar em consideração. Mas quando o mundo inteiro está incomodado menos o indivíduo, aí é uma questão de estigma, de preconceito. Não quer dizer que a pessoa precisa fazer alguma coisa a respeito.

Muitas pessoas procuram nutricionistas para emagrecer. Você defende a causa body positive e é contra essa ‘cultura da dieta’. Enquanto nutricionista (e magra), como você abriu sua mente para isso?
É uma história meio longa, vou tentar sintetizar. Eu fui atleta, bailarina clássica, durante boa parte da minha vida. Quando entrei na faculdade de nutrição, o meu objetivo era trabalhar com performance, com a parte esportiva e com os atletas da dança. Ginastas, modelos, bailarinas e alguns atletas precisam realmente ter uma preocupação com o corpo, porque são atividades que estão diretamente relacionadas com isso – seja pela questão estética ou pela performance. É o caso do balet, que tem uma demanda estética, mas também o peso é uma questão porque a sapatilha de ponta é uma superfície de área de quatro centímetros que você sobe na ponta e você deposita todo o peso do teu corpo ali. Então, quanto menos peso você tiver, quanto mais magra você for, melhor será sua técnica.

Quando entrei na faculdade de nutrição, me relacionava apenas com as pessoas do meio da dança. Todas minhas amigas eram bailarinas e eu tinha muito contato com os professores, com os coreógrafos e, não é segredo pra ninguém, que essa área é complicada no sentindo de transtorno alimentar, de distorção da imagem corporal. Bailarinas muito magras que se definem como gordas – olham no espelho e fala: “Nossa, estou enorme” – é uma desgraça. Eu achava que se preocupar com peso, com corpo, com dieta, é coisa de atleta, porque o atleta tem um motivo pra se preocupar com isso. Eu achava que as pessoas que não tinham um motivo pra se preocupar com dieta, se preocupavam com isso. Quando entrei na faculdade de nutrição, comecei a me relacionar com pessoas que não eram bailarinas, como eu, só que tinham a mesma preocupação. Meninas lá da minha faculdade passavam a tarde em casa sem fazer nada porque a gente estudava de manhã e à tarde elas não tinham nada pra fazer. Mas ficavam preocupadas com emagrecimento, com dietas e eu tinha que fazer dieta porque estava competindo.

Foi quando comecei a ver que a insatisfação corporal era uma coisa generalizada da população feminina como um todo. Isso foi um divisor de águas na minha vida. E aí eu comecei a estudar muito sobre isso. Estudei na perspectiva da antropologia, sociologia, psicologia, psicanálise, toda essa questão do corpo, mas ainda estava na faculdade de nutrição. Então, a gente tinha as aulas de dietoterapia, de evolução clínica… E a gente tinha aulas de dietoterapia para obesidade – o tratamento do indivíduo obeso, aquela coisa bem mainstream. E era isso! Os professores diziam nas aulas que a pessoa é gorda porque ela consome mais do que o corpo dela deveria e, por isso, ela fica gorda e o tratamento para isso é fechar a boca e fazer exercício. Não tive nenhuma aula de aspectos sociais da obesidade, aspectos psicológicos da obesidade, aspectos políticos da obesidade. E eu tinha uma curiosidade muito grande em relação a isso porque é muito superficial. Você pegar uma pessoa que tem todo o contexto de vida, todo um sofrimento, toda uma questão e falar assim: “fecha a boca”! Isso nunca foi convincente pra mim. Por isso, eu comecei a correr atrás de outro pensamento, outras formas de ajudar e eu comecei a entender que, muito além de peso e medidas, o que realmente é determinante são os hábitos de vida e a questão da autoestima e do quanto a pessoa ama e é amada pelos outros; o quanto que ela sente que ela participa de sociedade de uma maneira enriquecedora. Quando a pessoa começa a se sentir feia, horrorosa, inútil, ela deprime, não melhora. Então, eu comecei a ver que isso é positivo pra promover saúde.

 

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SIM eu sou nutricionista e 200% a favor da autoaceitação (favor não confundir com comodismo). Por esta razão, já fui “alertada” muitas vezes pelos meus colegas sobre os perigos do movimento Body Positive – que supostamente promove negligência e “valoriza”a obesidade. Balela. Besteira. Não é o que ocorre. A aceitação abre portas para uma vida digna. Pessoas que passaram a vida se envergonhando e não se permitindo um monte de experiências agora estão vivendo com muito mais felicidade e qualidade. No entanto, eu já ouvi inúmeros relatos das consequências nefastas da não aceitação do corpo gordo: bullying, isolamento, insegurança, depressão, sedentarismo, compulsão alimentar, bulimia, baixa autoestima, síndrome do pânico, ansiedade generalizada, negligência médica, automutilação e tentativa de suicídio. Se existe algo na sociedade que deve despertar a nossa preocupação, definitivamente é a intolerância. Gordas de biquíni não causam a morte de ninguém. #NSE #Autoestima #Autoaceitação #BodyPositive #NutriçãoComportamental #NC #NutrirCompaixão #Amorpróprio #SaúdeMental

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Leia o texto dela sobre a “valorização da obesidade” e todos os problemas que ela pode causar

*Texto meu, originalmente publicado nas edições online e impressa do jornal CORREIO

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